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Dark, ou o Prometeu pós-moderno: negação da morte e avanço científico

Lidia Zuin

15/08/2020 04h12

Aviso: Este texto contém spoilers da série "Dark".

Já houve outros momentos aqui em que fiquei em dúvida se não estava sendo monotemática ou influenciada demais pela minha atual pesquisa no doutorado, que estou em vias de concluir. Mas, ao que tudo indica (e o que também alguns me confirmam), os quatro anos de estudo não tiraram totalmente minha sanidade, e ainda consigo separar o joio do trigo. No caso, trago em pauta uma série que foi muito comentada nos últimos tempos, em especial devido ao seu encerramento — com agrados e desagrados de toda sorte.

Agora que acabou, sabemos que "Dark", série alemã produzida pela Netflix, traz como tema central a viagem no tempo. Esse dado basta para que a obra apresente dois possíveis desdobramentos: clichês sem fim ou uma proposta nova e revigorante. "Dark" se encaixa na segunda opção.

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No Tilt, uma reportagem bastante esclarecedora esmiúça os temas e os conceitos explorados ao longo das três temporadas, além de um outro texto, de Rodrigo Petronio, que aborda o motivo pelo qual a série fez sucesso. No caso de Petronio, alega-se que "de 'Doctor Who', '2001' e 'Em algum lugar do passado' a 'Efeito Borboleta' e 'Interestelar', as virtualidades contidas nas viagens espaciotemporais estão entre os recursos narrativos mais potentes para se repensar os fundamentos da realidade. Nesse sentido, 'Dark' é excepcional. Já nasceu clássica."

Uma das razões para ser tão clássica é que, entremeada à proposta, exibe-se uma narrativa arquetípica tão antiga quanto a cultura grega, uma vez que o enredo de 'Dark' muito se aproxima do mito de Prometeu —  amplamente utilizado em histórias de ficção científica ("Prometheus", de Ridley Scott, é o exemplo mais literal).

Existem diferentes versões do mito segundo autores variados, como é o caso de Hesíodo e Ésquilo, mas, de maneira geral, o que o mito de Prometeu narra é a história de Prometeu e de seu irmão, Epimeteu, que foram incumbidos com a tarefa de criar os seres humanos e os animais. Epimeteu se encarregou da obra, conferindo coragem, inteligência, garras, carapaças e asas aos animais, mas quando chegou a vez do homem, só restava barro. Epimeteu pediu ajuda ao irmão Prometeu, que então roubou o fogo dos deuses e o entregou aos humanos, assim possibilitando a superioridade dos homens perante os outros animais. No entanto, o fogo era posse exclusiva dos deuses e, por isso, Zeus ordenou que Hefesto acorrentasse Prometeu ao cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia ou um abutre dilaceraria seu fígado que, no entanto, regenerava-se continuamente. Isso se repetiria por 30 mil anos.

Na tragédia grega "Prometeu Acorrentado", de Ésquilo, o protagonista teria ficado responsável por ensinar aos humanos a escrita, a matemática, agricultura, medicina, bem como a própria entrega do fogo como um elemento tecnológico capaz de impulsionar o desenvolvimento das civilizações. Nessa versão, descobrimos que Prometeu exerceu um papel importante, ao possibilitar que Zeus e outros deuses vencessem batalhas, o que torna o pedido de punição um ato também de traição. E assim, no senso comum, associar algo ao mito de Prometeu é concluir que, como na máxima, a curiosidade matou o gato: há coisas com as quais os homens não devem mexer se não quiserem ser punidos e amaldiçoados. É a mesma lógica da maçã oferecida a Adão por Eva, na narrativa bíblica, ou do mito de Pandora e da abertura de sua caixa misteriosa.

Não é à toa, portanto, que temos em "Dark" a alusão clara às personagens de Adão e Eva como seres fundantes da humanidade ou daquela cosmogonia que se forma no seriado. Na realidade, como descobrimos ao longo das temporadas e, em especial, na última, eles não são exatamente protagonistas — sequer têm controle sobre suas próprias vidas. O tema do livre arbítrio é frequentemente abordado, mas pouco aprofundado, afinal, o enredo se desdobra na ilusão de que, sim, humanos devem seguir as regras do jogo do tempo, porém talvez seja possível enganá-lo e assim retornar a um suposto paraíso.

Na terceira temporada, descobrimos que a única forma de impedir toda a desgraça pela qual as famílias sofrem estava na origem de tudo: quando H. G. Tannhaus põe sua máquina do tempo para funcionar pela primeira vez e, assim, cria as dimensões de Adão e de Eva: ambas experienciam o apocalipse independentemente do que seja feito por Martha ou Jonas. O fim da série, portanto, culmina no esclarecimento de que não havia possibilidade de driblar o apocalipse e que, na verdade, todas as vidas e tempos estavam bagunçados e entremeados de forma insolúvel. A única saída estava na descoberta de que aquelas duas dimensões nas quais a série se desdobra até a terceira temporada nada mais eram do que um efeito colateral negativo da empreitada de Tannhaus.

Mas ele não havia sido o primeiro a tentar bagunçar o tempo. Seu bisavô teria fundado a seita do Sic Mundus para descobrir como viajar no tempo. Esse interesse não aconteceu por curiosidade científica, mas porque Heinrich não conseguia aceitar a morte de sua esposa, Charlotte. No caso de H. G. Tannhaus, que é quem consegue criar a máquina do tempo, o cientista-escritor havia perdido seu filho, nora e neta em um acidente de carro logo após uma discussão entre pai e filho. De uma coisa tão "trivial" (no sentido de que poderia acontecer com qualquer um), dá-se o surgimento de universos preenchidos por sofrimento e mais morte.

Quando Mary Shelley escreveu "Frankenstein", em 1818, ela não só inaugurou o gênero da ficção científica como também resgatou o mito de Prometeu — aliás, o título completo do romance é "Frankenstein, ou o Prometeu moderno". Nesta obra, a escritora britânica usa como recurso literário a história de um homem que se dedica a chegar ao Pólo Norte com o desejo de realizar uma descoberta científica, mas é interceptado por um estranho que é resgatado por sua tripulação e que lhe conta a própria história como advertência. Este homem, Victor Frankenstein, narra a sua vida desde a infância feliz até a perda de sua mãe por uma doença e, então, sua busca por conhecimento e as descobertas científicas em seu período de estudante universitário.

Transitando entre autores considerados místicos e novas descobertas na área da química, Frankenstein se vê capaz de criar uma vida, tal qual o homúnculo vislumbrado pelos alquimistas. Só que essa nova vida é monstruosa e, por isso, seu criador a rejeita. Permeada pelo excessivo drama comum ao romance gótico, a trajetória do cientista então é interceptada por doenças, surtos e perdas de pessoas amadas pelas mãos do monstro que ele próprio criou. Somos também convidados a conhecer mais sobre a subjetividade do monstro e entendemos que ele, em si, não nasceu corrompido, mas que sua aparência física sempre foi um empecilho para que fosse aceito e incluído na sociedade. Resignado perante sua condição, ele pede a Frankenstein que dê vida a uma criatura à sua imagem, porém do sexo oposto. O cientista se nega, e então sobrevêm mais mortes, pela mão do monstro ou como desdobramento de seus atos.

Shelley aborda o desejo de Frankenstein em dominar a ciência da vida, para que possamos nos libertar da morte, das doenças e da infelicidade. Assim como a personagem Mina, de "Drácula", escrito por Bram Stoker, pede que o homem a livre de toda a morte, Frankenstein também parte desse pressuposto e acaba criando um monstro que se volta contra o criador, ou nas palavras do mesmo: Victor pode ser seu criador e o monstro a criatura, mas ele o fez mais forte que os homens e isso o torna superior e, portanto, seu mestre. Assim, Shelley traz à tona o mito de Prometeu no sentido de que Frankenstein teria roubado o fogo dos deuses através da obtenção de conhecimentos científicos que não deveriam estar nas mãos dos homens. A tecnologia pode, à primeira vista, parecer positiva e promissora, mas também pode dar em tragédia e infortúnio.

Na série "Penny Dreadful", vemos uma interpretação da relação entre Frankenstein e seu monstro mais próxima àquela descrita por Shelley

Quando Shelley escreveu "Frankenstein", dava-se início ao processo que ficou conhecido como Primeira Revolução Industrial. A transição de um mundo arcaico para um mundo tecnológico, movido a vapor, não foi vivido completamente à base do entusiasmo, e isso fica refletido no romance gótico e em seu subsequente desdobramento na ficção científica e no horror.

Com o tempo, a associação entre progresso científico e tecnológico junto ao medo ficou mais fraca — isso fica patente em obras otimistas de autores como Julio Verne ou mesmo "A Rainha do Ignoto", aqui no Brasil. Mas é fato que, até hoje, somos confrontados por narrativas de sucesso comercial que se aproveitam desse binômio entre progresso científico e suas consequências negativas — "Black Mirror" é o mais contemporâneo representante nesse sentido.

Quando concluímos a série "Dark", entendemos que Martha e Jonas decidem impedir que a máquina do tempo seja construída e assim suas dimensões e tragédias não se desenrolem, isto é, eles abdicam da chance de existir. Talvez esse seja o único sopro de otimismo perante a ideia de livre arbítrio, porque Martha e Jonas entendem que só poderão evitar o apocalipse e todo o sofrimento em torno dele se o gatilho que levou Tannhaus a criar a máquina do tempo fosse evitado. Ao impedir que o filho do cientista morra com sua família, a vida segue na dimensão "original", e Martha e Jonas, ou Adão e Eva, junto com suas dimensões, deixam de existir. Isto é, para que mais mortes e sofrimento não fossem causados, Martha, Jonas e todos os demais personagens da série abdicaram de sua existência.

Somos os únicos seres vivos que sabem que irão morrer e, diante disso, criamos subterfúgios que nos dão sentido para continuar vivendo, apesar do destino derradeiro. Nem sempre os subterfúgios são suficientes para preencher nossa angústia, nem sempre as religiões entregam uma narrativa que nos consola, então partimos para a ciência e desafiamos os deuses, tentamos roubar seu fogo, mas somos, em tese, sempre punidos em um círculo vicioso de perdas e danos.

Não temos um abutre comendo nosso fígado, mas temos essa "coceira" da consciência e da ambição humana que perpassa as gerações, como em "Dark". Quando Martha e Jonas eliminam a "maçã" que Tannhaus poderia ter mordido, e assim ser expulso do paraíso, criando consigo novas camadas de um inferno dantesco, eles impedem que todos sejam condenados à danação — mas também barram uma descoberta científica grandiosa.

É nesse sentido que a ética se desdobra como um campo filosófico importantíssimo na contemporaneidade. Afinal, como na época de Mary Shelley, também estamos em vias de um processo de nova revolução industrial (a quarta, segundo o Fórum Econômico Mundial), e certas escolhas científicas e tecnológicas têm a chance de se desdobrar em um apocalipse que ainda não previmos. Não temos (ainda?) uma máquina do tempo, mas temos a capacidade de pensar o futuro, especular desdobramentos e refletir sobre possibilidades e consequências. Os estudos do futuro e a própria ficção científica podem contribuir muito com a inovação tecnológica e a discussão em torno dela.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.