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Os impactos da Covid-19 no futuro do design e da arquitetura

Lidia Zuin

22/05/2020 09h03

Na coluna passada, comentei sobre um livro de ficção científica cujo enredo se desdobrava após uma pandemia. Em "Holy Fire", Bruce Sterling aborda como as casas mudaram sua arquitetura para acoplar uma espécie de antessala higienizadora. No momento em que li, pensei muito nas naves dos filmes tipo "Alien", nos quais há uma pré-sala de descontaminação, só que o ambiente inóspito e contaminado seria simplesmente aquele fora de casa. Meio que faz sentido nessa quarentena que estamos (sobre)vivendo.

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Na realidade, historicamente é possível apontar algumas mudanças no design das casas depois de algumas epidemias como a gripe espanhola em 1918, tuberculose e disenteria. Segundo a professora de história da arquitetura Juliana Suzuki, os últimos duzentos anos de mobiliário estão muito relacionados às questões de saúde. No final do século 19, a Europa começou a passar por medidas sanitaristas, uma vez que os cientistas tinham acabado de fazer algumas descobertas sobre a transmissão das doenças da época.

Suzuki comenta, por exemplo, que "as pessoas acreditavam que o grande vetor de doença era o próprio ar. Por isso, quem estava doente era mandado para longe da cidade, para receber 'bons ares'. É com a epidemia de cólera na Inglaterra, que dizimou as populações urbanas, que o debate acerca da origem das doenças começa a ganhar mais força". Como naquela época não era comum lavar as mãos e limpar a casa, foi só com os avanços da ciência, em especial a descoberta das bactérias e germes, que uma maior compreensão sobre higiene passou a ser difundida. De acordo com Suzuki, essas medidas partiram primeiro do governo, o que pode parecer estranho hoje — ainda mais levando em conta o obscurantismo do governo atual.

Do urbanismo para o espaço doméstico, essas medidas foram adaptadas na arquitetura e na decoração. Alcovas, isto é, quartos sem nenhuma janela, eram algo muito comum na Europa até o século 19. No entanto, com as descobertas científicas, percebeu-se que a falta de ventilação nas casas colaborava com a propagação das doenças. Fora isso, também se passou a concentrar o armazenamento de roupas em armários como forma de facilitar a limpeza do quarto. Antes disso, as pessoas costumavam guardar as roupas em móveis independentes e é por isso que, em alguns apartamentos, antigos há pouco espaço para armários. Nos anos 1920, consolidou-se o uso de armários como uma forma de manter a higiene.

Na cozinha, os azulejos foram incorporados a partir do século 19 porque eram associados à ideia de limpeza e de ambientes livres de germes. Paredes claras e fáceis de limpar poderiam garantir maior higienização do espaço residencial. O mesmo vale para o lavabo, que surgiu como ideia para não ser preciso compartilhar o banheiro da família com visitas. Naquela época, ter uma pia perto da sala e da entrada servia como estímulo à higiene das mãos, por exemplo. Então, quando vemos a estética limpa do modernismo, é possível dizer que isso ocorreu, em parte, por causa da influência da epidemia de tuberculose: os hospitais bem iluminados serviram de referência para a estética dos cômodos brancos e amplos, tipo a casa dos Kardashian-West.

É possível que esse tipo de medida possa voltar depois da pandemia. Senão, alguns hábitos importados de outros povos, como os japoneses, que têm o costume de deixar casacos e sapatos usados fora de casa em um canto na entrada, podem já ajudar. Por outro lado, alguns designers e arquitetos têm pensado também em soluções que envolvem roupas, acessórios, mobiliário e decoração que facilitem o distanciamento social e a proteção contra infecções.

Plex'Eat de Christophe Gernigon

Segundo a plataforma de marketing Criteo, as vendas em melhorias para a casa, jardinagem e decoração aumentaram 13% nos Estados Unidos no começo de março e permaneceram com uma alta de até 8% no meio do mês, se comparado a janeiro de 2019. No caso do site Wayfair, que vende móveis, houve um aumento de 37% nas vendas em abril quando foram anunciadas liquidações. Contudo, no que diz respeito ao mercado de luxo, as perspectivas da Bain and Company, por exemplo, são que esse setor acabe contraindo em 25-30% até o fim de 2020, uma vez que as pessoas estão evitando fazer grandes investimentos.

No entanto, marcas de móveis e utensílios para a casa estão tentando decupar esse momento e a maneira como elas podem lidar com a ansiedade com a qual os consumidores estão passando no momento. Muitos eventos que eram físicos passaram para o digital e o mesmo também aconteceu no setor. A Helsinki Fashion Week, por exemplo, vai ser completamente digital, com designers trabalhando junto a artistas 3D para fazer suas coleções — algo que algumas marcas já estão testando junto a influenciadores. Por outro lado, também se vê das ideias mais esdrúxulas, como colocar um chapéu com aqueles macarrões usados em piscina, para demarcar o afastamento, até soluções artísticas que, apesar de mirarem no futuro, acabam trazendo muito da estética futurista dos anos 1950 e 1960.

Para quem assistiu à série "Electric Dreams" da Amazon Prime, o episódio "Human Is" mostra muito desse futurismo imaginado por Philip K. Dick, e um exemplo é o conceito criado por Christophe Gernigon. Nomeado "plex'eat", o projeto apresenta cúpulas de acrílico que descem do teto como luminárias e circundam a parte superior do corpo das pessoas enquanto elas fazem sua refeição. O futurismo dos anos 1950 também aparece no projeto de máscaras criadas pelo coletivo artístico alemão Plastique Fantastique. O acessório apelidado de iSphere é um projeto de código aberto que levou apenas 30 minutos para ser montado, sendo que os custos em material foram de algo como 24 euros. Como sugestão dos artistas, o iSphere ainda pode conter customizações incluindo óculos escuros, uma camada espelhada, microfone integrado, uma caixa de som ou mesmo um snorkel.

Já uma versão mais contemporânea do que é considerado futurista aparece no conceito de máscara-visor proposto por Joe Doucet. Levando em conta que visores têm demonstrado maior segurança do que máscaras cirúrgicas, por que não torná-los um acessório fashion? Nessa mesma perspectiva, o estúdio Production Club criou uma espécie de vestimenta de proteção individual para aqueles que desejam voltar à vida noturna o quanto antes.

Segundo os designers, o conceito nomeado Micrashell aponta para o futuro da interação humana, apesar de ser feito para isolar o indivíduo do ambiente externo. No entanto, a roupa ainda conta com um compartimento para bebidas, um sistema de armazenamento para vaporizador, caixas de som acopladas e integração com smartphone. Os criadores ainda asseguram que os usuários poderiam ter relacionamentos sexuais usando a roupa, algo que imediatamente me remete ao curta "Urbance".

Conceito de roupa protetora criada pelo estúdio Production Club

E falando em estabelecimentos públicos, um relatório de tendências publicado pela Roar sugere que, no futuro, os restaurantes podem adotar uma estética mais escapista, já que haverá menos pessoas saindo para comer fora de casa, então a experiência precisa ser mesmo "de outro mundo". Essa já era uma tendência acontecendo antes da epidemia, mas agora é esperado que se intensifique. Fora isso, para os especialistas, menus físicos, pagamentos em dinheiro ou mesmo modelos de negócio baseados em buffet e compartilhamento de comida vão cair por terra.

Do ponto de vista de decoração, o modernismo retornará com força pelos mesmos motivos que influenciaram seu desenvolvimento no século passado: higiene e minimalismo. Segundo o relatório, ao "abraçar linhas simples, geometrias estritas e materiais modernos, bem como a rejeição de ornamentos como móveis feitos de madeira e que coletam micróbios perigosos", os restaurantes pós-Covid19 também precisarão de cozinhas mais espaçosas e transparentes, bem como utensílios e superfícies antimicrobianas — o que já entra na seara da ciência de materiais.

É claro que pode ser que nada disso aconteça, mas, assim como visto no passado, pelo menos algumas ideias devam ser dissolvidas no dia a dia e passem a ser o tal do "novo normal" de que tanto ouvimos falar por aí. Assim como as epidemias anteriores nos tornaram mais conscientes sobre higiene, é possível que também passemos por mudanças em nossos hábitos de consumo — o que, por sua vez, leva a mudanças industriais e comerciais. É um ciclo retroativo e, diante da crise de saúde pública, mas também econômica, marcas e estabelecimentos comerciais serão forçados a se adaptar para sobreviver.

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.