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Em 'Holy Fire', Bruce Sterling imagina uma gerontocracia pós-pandemia

Lidia Zuin

09/05/2020 04h00

Em 1998, o escritor de ficção científica Bruce Sterling publicou na revista INTERZONE "Cyberpunk in the Nineties", ou cyberpunk nos anos 1990, fazendo um balanço sobre o gênero e seus autores. Para Sterling, a "intensidade visionária", outrora um valor central no cyberpunk, foi abandonada com o tempo e com o envelhecimento dos autores que, à época da coluna, deviam estar na casa dos 40 anos. Afinal, já fazia "algum tempo que algum cyberpunk escreveu alguma história realmente surpreendente, algo que se contorcesse, se atirasse, uivasse, alucinasse e destruísse os móveis". 

Isso tudo foi tido oito anos depois de Lewis Shiner, parte do quinteto O Movimento, que deu origem ao cyberpunk, já ter publicado no jornal The New York Times "Confissão de um ex-cyberpunk", sobre como o gênero já não fazia mais sentido.

De todo modo, em pleno 2020, adaptações e obras originais resgatam o subgênero ou pelo menos alguns de seus elementos, como é o caso das séries "Black Mirror", "Altered Carbon" ou ainda o aguardado jogo "Cyberpunk 2077".

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Em 1996, porém, Sterling lançou o romance "Holy Fire", uma ficção que escancara as opiniões que o autor trabalha em sua coluna. Considerada uma obra cyberpunk, "Holy Fire" traz ponderações e construções literárias mais maduras do que o estilo que o grupo consagrou nos anos 1980.

Em "Holy Fire", acompanhamos a trajetória de Mia Ziemann, uma economista da saúde de 94 anos vivendo em um mundo pós-pandêmico, no do século 21. Assim como Sterling descreve em seu artigo "The object of posterity's scorn" na revista ARC, o autor se vale de referências históricas para pensar o futuro, entendendo que certas ocorrências são quase cíclicas. No caso de epidemias, é simplesmente uma questão de "quando" e não de "se".

Hoje, diante da crise da Covid-19, a ansiedade típica da nossa condição metamoderna nos faz querer saber de antemão o que vai acontecer depois que tudo isso acabar — seja lá quando for.

Palpites não faltam, mas foi interessante encontrar na ficção de Sterling a ideia de que, após vivenciar uma epidemia que matou milhares de pessoas, a sociedade se transformaria em um grande complexo médico-industrial, de modo que a higiene e a esterilização se tornassem a norma e as tecnologias de extensão da vida seriam possíveis, não apenas de se viver por mais tempo, mas também prolongar a juventude. Apesar da idade, Mia não é uma mulher debilitada e, assim como se observa hoje em dia, cada vez mais a ideia de "juventude" se estende devido a novas técnicas, sejam elas medicinais ou cosméticas.

Quando perguntei a Sterling o que ele acredita que viveremos depois que a pandemia acabar, se teríamos um mundo parecido com o de "Holy Fire", o autor disse que as coisas não irão voltar ao normal. "Grandes eventos como esse mudam muitos aspectos de nossas vidas, mas as pessoas irão rapidamente esquecer sobre desastres como as epidemias." Para ele, "epidemias fazem as pessoas se sentirem assustadas, humilhadas e desamparadas, e ninguém gosta de insistir no trauma".

O que vemos no romance é a história de uma mulher que sofre uma "crise de quase centenária" ao perceber que, durante toda sua vida, ela foi cuidadosa demais. Essa constatação se torna patente quando Mia visita um ex-namorado pouco antes de ele optar pela eutanásia, uma vez que sua vida não tão conservadora o fez acumular danos irreversíveis ao corpo, mesmo em um momento de alta tecnologia médica.

Mia, apesar da idade, se torna habilitada para um procedimento experimental de rejuvenescimento completo. Depois de passar meses suspensa em uma espécie de câmara descrita de forma reminiscente à icônica abertura de "Ghost in the Shell", a protagonista retorna ao mundo como uma garota de 20 anos desassociada de sua identidade real, então renomeada Maya, a partir de uma confusão na pronúncia de seu nome.

De forma semelhante a "Holy Fire", o filme "Neon Demon" também escancara a incongruência do mundo artístico, em especial na indústria da moda

Como confirmei com Sterling, a escolha por esse novo nome não foi acaso: Maya é um conceito do hinduísmo que diz respeito à ilusão mundana. "Conforme você fica mais velho e mais sábio, você vê para além da fascinação sensual e colorida exercida por 'Maya' e, então, você confronta a realidade espiritual da vida. No livro, 'Maya' é uma mulher idosa que decide abandonar sua sabedoria porque ela quer resgatar a vitalidade e a vivacidade da juventude. Isso é algo perverso na sociedade dela, mas ela se rebela e faz o procedimento mesmo assim", explica o escritor.

Para resgatar essa vivacidade (aliás, o adjetivo "vivid" ou vívido é bastante usado no romance como uma forma de expressar um certo frescor na juventude), Mia, então Maya, começa a tomar atitudes impulsivas, como viajar para a Europa sem dinheiro e sem documento. Apesar de a Europa do fim do século 21 prover comida gratuita e um estado de bem-estar social generalizado, a protagonista acaba dependendo da boa vontade dos outros ao usar, principalmente, sua beleza e juventude como chamariz. Fora isso, um dos efeitos colaterais ao procedimento rejuvenescedor foi fazer Maya insensível à sua percepção de fome, o que calha bem com o desejo e destino da protagonista em se tornar modelo.

Assim, Maya se vê inserida em um contexto boêmio de artistas que transitam entre Munique, Stuttgart, Praga e Roma. Diferentemente dos neologismos tecnológicos do cyberpunk dos anos 1980, aqui há uma mistura de palavras estrangeiras e transições frequentes entre o alemão, italiano e francês — tudo suportado por tecnologias de tradução que variam entre plugs auriculares e perucas inteligentes. Aliás, todas as tecnologias, cenários e personagens imaginados por Sterling possuem uma alta carga fashionista e muitos dos exemplos são verdadeiros estereótipos do mundo artístico — "Holy Fire" é, sobretudo, uma história sobre o futuro deste nicho. "Sou um cyberpunk, mas me envolvi no campo das artes depois de escrever esse romance. Hoje, sou diretor de arte do Share Festival em Turim, na Itália, e meus amigos locais conseguem se relacionar muito bem com a história", Sterling me contou.

Entre artistas junkies (enteógenos são a droga do futuro imaginado por Sterling), programadores-artistas (Sterling chama essa combinação de arte e tecnologia de "artifício", por exemplo), fotógrafos consagrados e acadêmicos supervalorizados, a cena cultural de "Holy Fire" traz em si o problema patente nessa sociedade do fim do século 21. Diante de novas tecnologias de extensão da vida, o envelhecimento da população se intensifica e aqueles que outrora tiveram a oportunidade de formar seus negócios estão no topo da economia. Isso significa que o mundo de "Holy Fire" é uma gerontocracia em que há pouca mobilidade social para os mais jovens, o que torna a interação geracional um conflito. A longo prazo, isso também pode ser um problema na nossa realidade, como comenta Sterling: "A sociedade de hoje está muito mais velha, demograficamente, do que 24 anos atrás, quando o livro foi publicado. O novo coronavírus preferencialmente mata pessoas mais velhas, mas certamente não irá matar todas elas, e isso pode acabar radicalizando essas pessoas. E elas votam."

Vemos também que, desde 1996, muitos projetos estão crescendo em torno da busca pelo fim da morte e pela extensão radical da vida. "Presto muita atenção em pesquisadores em gerontologia. Encontrei Aubrey de Grey e jantei com ele uma vez, apesar de ele não ter querido comer o que eu estava comendo. Ele, certamente, é um homem diferente, mas ele é sério, genuíno, dedicado, um evangelista da extensão da vida metódico. E ele tem os meios, o motivo e a oportunidade de mudar a opinião pública em prol de suas ambições", o escritor revelou.

Natasha Vita-More, ex-halterofilista, é uma transumanista que defende o fim do envelhecimento e da morte. A pesquisadora reflete, em seu trabalho, alguns dos conflitos de "Holy Fire".

Na nossa realidade, para além de nomes como De Grey (que tem 57 anos) ou mesmo Peter Diamandis, Max More e Ray Kurzweil (58, 56 e 72, respectivamente), há também pessoas mais jovens, como Elon Musk (48) e Mark Zuckerberg (35) que estão investindo em projetos de extensão da vida. Aliás, esses nomes são provas de que a nossa sociedade (pelo menos, por enquanto) não se tornou uma gerontocracia tão rígida quando vemos pessoas de 30 anos fazendo fortunas e se tornando bilionárias. No entanto, isso não torna suas ambições diferentes, como ironiza Sterling. "Se você é um magnata da tecnologia e você tem bilhões de dólares, bem como o comando de pesquisa e desenvolvimento, deve ser vergonhoso simplesmente morrer de velhice como meros funcionários ou, ainda pior, como um mero usuário". Mesmo em "Holy Fire", os artistas jovens também almejam a imortalidade, porém a partir da transgressão.

No romance, ser jovem está quase que inextricavelmente associado a um comportamento rebelde, mesmo porque a rigidez gerontocrática não permite que pessoas mais novas tomem posições de poder e, portanto, responsabilidade. Alguns diálogos travados entre Maya e Brett, uma garota que sonhava ir para Stuttgart e se tornar uma designer de moda, escancaram o problema geracional da ficção: a personagem não consegue se estabelecer economicamente porque ainda é muito jovem e inexperiente, bem como também não consegue se tornar parte da cena artística boêmia por ser um nicho muito exclusivo. "Holy Fire", nesse sentido, parece ser uma antecipação do dilema da torrada com abacate dos millennials.

Maya, portanto, começa a assimilar a sua nova existência profana, uma vez que ela tem a aparência de uma garota de 20 anos, mas a mente e a maturidade de uma mulher de quase 100. Apesar de sua aparência física ter facilitado muitas conquistas, muitos outros problemas (mesmo com drogas) poderiam levá-la ao colapso se ela não tivesse maturidade suficiente. Assim como em "O Misterioso Caso de Benjamin Button", aqui somos confrontados com a possibilidade de reverter a lógica da vida, seja através do fim da morte ou da reconquista da juventude.

Sterling, por fim, traz justamente esse dilema entre viver uma vida saudável para envelhecer bem ou então aproveitar os anos de juventude, uma vez que a velhice trará limitações. Se conquistarmos a tecnologia para isso, talvez possamos, um dia, pôr em prática a resposta que damos à pergunta "o que você faria de diferente quando mais jovem?".

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.