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Lidia Zuin

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O manguebeat que resiste e conecta Recife às origens cosmopolitas

Lidia Zuin

27/09/2019 04h00

Chico Science & Nação Zumbi (Foto: Fred Jordão / Divulgação)

Ao longo de seu seminal livro "Ficção científica brasileira", a pesquisadora americana Elizabeth Ginway apresenta um panorama histórico das origens e desdobramentos da ficção científica brasileira em suas minúcias e particularidades. Em especial, no capítulo que Ginway trata da geração pós-ditadura militar, a autora disserta sobre as diferenças entre a ficção científica cyberpunk brasileira e sua contraparte americana. Diferente do norte-americano, o cyberpunk brasileiro "não é tão alienado política e fisicamente", o que significa que os textos locais, então apelidados de tupinipunk por ela e em consonância com o autor Roberto de Sousa Causo, têm um aspecto muito mais provocativo em que o "estereótipo do Brasil como uma sociedade sexualizada, radicalmente mestiça, e carnavalizada, parece ser confirmado nos romances tupinipunks". Apesar disso, a pesquisadora afirma que essas visões não são mera fantasia, mas sim uma "tensão ou ambivalência" que se reproduz nesse gênero.

Ginway, então, sugere, que o tupinipunk está para a literatura assim como a Tropicália esteve para a música brasileira: ambos foram "uma vanguarda cuja estética pode acabar tendo um impacto, embora possa não atrair seguidores imediatos. Como Dunn apontou, o público jovem dos anos sessenta vaiou Caetano Veloso e Os Mutantes, por suas guitarras elétricas, imagens psicodélicas do flower-power e roupas plásticas, todavia esses primeiros roqueiros pavimentaram o caminho para grupos como Chico Science e Nação Zumbi nos anos 1990″. É a partir daí, então, que iniciamos uma nova fase no imaginário da arte brasileira, que mescla suas raízes e a inovação, o que faz com que o manguebeat, tanto como gênero artístico quanto como movimento, posicione-se como um novo paradigma da arte brasileira, em especial no nordeste do Brasil.

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Assim como no caso da Tropicália, que contou com slogans como o de Hélio Oiticica, que dizia que "a pureza é um mito", também o manguebeat teve seu processo de criação artística antropofágico, em um momento em que a globalização já estava consolidada. Ao dialogar com tradição e modernidade, o movimento trouxe ritmos regionais como o maracatu e o coco, inserindo elementos de gêneros musicais americanos, como era o caso do rock, funk e hip-hop, bem como o dub jamaicano. No entanto, o que Mariana Lobo Simões destaca em seu artigo "A Tropicália, o Manguebeat e o 'Pós-Mangue' nas capas de disco" é justamente como o manguebeat, na realidade, criou "um 'lugar de fala' a partir da perspectiva local, reforçando Pernambuco como centro de convergência cultural. Consideramos que o Mangue dos 'Caranguejos com Cérebro' foi catalisador de fenômenos culturais que aconteceram posteriormente em nível local".

Em sua dissertação de mestrado, Letícia Batista da Silva navega ainda mais profundamente nas raízes do movimento, identificando que o manguebeat foi um desdobramento do Movimento Armorial idealizado pelo escritor Ariano Suassuna, nos anos 1970. Entre os armoriais, o objetivo era produzir uma arte brasileira e folclórica pura, erudita e que conservasse a cultura nordestina em suas criações. Quando Suassuna, então, nos anos 1990, assumiu o cargo de secretário da cultura do estado do Pernambuco, houve uma retomada mais tradicionalista e anti-globalização. No entanto, essa sua empreitada também contou com uma crítica e resistência, por exemplo quando Alceu Valença declarou ao Suplemento Cultural do Diário Oficial de Pernambuco, em 1992, que o estado estava "velho".

"Eu estou louco que apareça o novo, mas não está aparecendo. O que acontece em Pernambuco é que nós somos extremamente conservadores. A gente quer o forró, mas quer que o forró seja exatamente do mesmo jeito. Nós amamos Luiz Gonzaga, e nós não temos uma noção de que Gonzaga morreu. (…) O problema é que Pernambuco não quer a nova ordem, Pernambuco está morrendo de mofo. (…) Pernambuco é o estado careta, que não consegue ser contemporâneo."

Fred Zero Quatro, da banda Mundo Livre S/A, mais tarde contou à Folha de S. Paulo, em 2009, que esta era justamente a angústia dos novos artistas pernambucanos, sufocados por um ambiente conservador, "regionalista, voltado para a cultura ruralista. E Recife era uma metrópole com circulação de informação cosmopolita, mas sem espaço para se expressar. Na própria universidade havia um ambiente conservador, de unir o popularesco com a tradição ibérica [referência ao Armorial]. O contemporâneo, o pop não tinham espaço".

Quando Chico Science uniu forças com Fred Zero Quatro, então, esta foi uma empreitada de renovação cultural para as gerações que já não estavam mais interessadas no maracatu e na literatura de cordel, mas que no manguebeat podiam encontrar uma mistura do tradicional e local com o contemporâneo e global. Num primeiro momento, como descreve Silva, o manguebeat chegou a ser batizado de manguebit por ter uma conotação de unidade de armazenamento de dados, só mais tarde se restabelecendo com o termo "beat" relacionado à batida e ao compasso, no inglês.

Nesse sentido, a figura da antena saindo do mangue, que se tornou o símbolo do movimento, nada mais é do que uma consolidação simbólica do que o manguebeat representava e ainda representa. Nas palavras de Science: "Se a gente for tocar maracatu do jeito que ele é, a galera vai pegar no nosso pé. Então, a ideia básica do manguebeat é colocar uma parabólica na lama e entrar em contato com todos os elementos que têm para uma música universal, isto fará com que as pessoas futuramente olhem para o ritmo como ele era antes" (apud Silva). E foi dessa integração entre o novo e o velho que os chamados mangueboys conseguiram conciliar o tradicionalismo de Suassuna com a onda globalizadora de novos ritmos e tecnologias implementados ao contexto brasileiro.

Em seu manifesto "Caranguejos com Cérebro", publicado em 1992, os autores dividiram o contexto do movimento em três seções: "Mangue, o conceito", "Manguetown, a cidade" e "Mangue, a cena". No texto, somos apresentados a uma "analogia com o mangue como ilustração para suas convicções, a precariedade das condições de vida no Recife e a necessidade de 'um choque rápido ou o Recife morre de infarto"', descreve Silva. Já a adoção do caranguejo como um "mascote" vem do fato de o animal ser capaz de promover "a renovação de nutrientes de camadas mais profundas da lama", bem como também servir como principal fonte de alimentação e sobrevivência para as populações ribeirinhas.

Por outro lado, também o caranguejo se tornou um símbolo de exploração social a partir da referência de Josué de Castro em seu romance "Homens e caranguejos", de 1967, no qual o autor apresenta um retrato da vida das populações do mangue recifense a partir da perspectiva do protagonista João Paulo, um menino que se revolta com a situação da sua família e comunidade. Como explica Silva, "para o narrador, o ciclo da fome e o ciclo do caranguejo são a mesma coisa, já que, como comentado, humanos e crustáceos acabam por alimentar uns aos outros. No início do romance, é possível perceber que uma das teses do livro é a da impossibilidade de fugir desse ciclo". Não à toa, Josué se tornou um vocativo presente nas composições de Chico Science & Nação Zumbi.

Contudo, além do aspecto político e local, o manguebeat, que contava com outros nomes como Mestre Ambrósio, DJ Dolores, Comadre Fulozinha, Jorge Cabeleira e o Dia em que Seremos Todos Inúteis, Eddie, Via Sat e Querosene Jacaré, também estava dedicado ao diálogo com as inovações tecnológicas e outros movimentos artísticos fora do Brasil. Jorge du Peixe, que faz parte da banda desde sua fundação, mas que só depois da morte de Chico Science foi assumir os vocais, conta que, inclusive, o próprio pseudônimo de Science vinha da sua ligação com "a ciência, a alquimia e a tudo que ele misturava entre o orgânico ou o digital e também as referências do afrofuturismo". O movimento artístico e também político que ganhou destaque com o pioneirismo do músico Sun Ra foi uma grande inspiração para os mangueboys nos anos 1990. "Sun Ra já falava de uma música interplanetária e Herbie Hancock começou a colocar elementos periféricos e intenções eletrônicas. A própria música jamaicana, o dub, já flertava com tecnologias no quintal. A gente também estava bem calcado nisso. Fizemos o uso do maracatu e também colocamos música eletrônica nessas intenções. Posso dizer que essa ideia nossa já vem desde [o álbum] 'Da Lama ao Caos'. Lá já se ouve como dub e elementos afrofuturistas, de certa forma. E isso se calçou de uma maneira melhor e mais precisa no [álbum] 'Afrociberdelia', que o próprio título sugere isso: África cibernética e psicodelia", comenta Jorge.

Foi justamente com o álbum "Afrociberdelia" que a banda lançou também um de seus clipes mais icônicos, em 1996, o vídeo para a faixa "Maracatu Atômico". Entre os músicos vestidos ao estilo do Maracatu Rural, também estão cenas nas quais os artistas "brincam" na lama de um mangue que, por acaso, ficava no quintal da casa do futurólogo e estrategista recifense Felipe Teobaldo. Hoje com 32 anos, ele conta que na época ainda era criança e sua família era sempre visitada por pessoas que brincavam naquele espaço, bem como com a argila caulim, que possui propriedades cosméticas. "O caulim de itapuama era um extrativismo integrado ao cenário da cidadezinha de pescadores. A lama do mangue de itapuama há muito já havia sido destruída pela plantação de coqueiros não-nativos pela família Brennand, dona de faixas de terra naquele litoral, mas a voz do manguebeat entrou na minha mente de adolescente e fez entender a chegada desses sistemas que modificam a natureza local e se instalam como a verdade", conta Teobaldo. Só mais tarde, durante a adolescência, ele pôde entender melhor o impacto do álbum "Da Lama ao Caos" sobre os jovens recifenses. "A explosão cultural de Chico resgatou o controle para os jovens e deixou o classicismo armorial de lado. Esse foi o impacto no início dos anos 2000, olhar para o Recife não como um espaço de ecos do passado, mas como um celeiro de possibilidades para o futuro."

Já Jacques Barcia, escritor de ficção científica e futurista recifense, conta ainda que chegou a saber que pessoas ligadas ao urbanismo chegaram a argumentar que o manguebeat criou "um senso de pertencimento profundo para o Recife". Segundo Jorge du Peixe, a época em que o manguebeat se estruturava também foi um momento no qual Recife passava por uma crise: era a quarta pior cidade do mundo em vários aspectos, como em saneamento básico. Curiosamente, porém, Barcia lembra que, naquele momento, ele próprio estava começando uma banda, mas não de manguebeat e sim de punk, o que foi um conflito porque o gênero recifense estava tão em alta que "simplesmente devorou qualquer outra estética". "A brincadeira até um bom pedaço dos anos 2000 era de que, se a banda não tivesse uma alfaia, não tocava em canto nenhum. Claro que o manguebeat se conectou a uma tendência global de mistura de ritmos, neotribalismos etc – 'Chaos AD' do Sepultura é de 1993 e já tem elementos tribais. O primeiro disco do Asian Dub Foundation também é de 1993. 'Da Lama Ao Caos' é de 1994, mas localmente ele contribuiu para o colapso do metal e hardcore no Recife."

Mas esse tribalismo do manguebeat também era orientado ao futuro e não apenas ao resgate da ancestralidade, como dita a própria premissa do afrofuturismo. Em diferentes álbuns, há canções como "O encontro de Isaac Asimov com Santos Dumont no céu" em "Afrociberdelia" ou ainda "Computadores fazem arte" em "Da Lama Ao Caos". Dentre as referências da ficção científica, Jorge lembra que a banda sempre esteve ligada ao próprio Asimov, Philip K. Dick, mas também a clássicos do cinema como "Blade Runner" e "Metropolis". "Futura", como um álbum, trouxe o que Jorge chama de "psicodelia em preto e branco" com canções mais distópicas e que carregam nomes sci-fi como "Voyager". "Esse tom crítico, abordando toda uma visão política também, caótica e especulações aparecem o tempo todo de forma implícita ou explícita nas letras das músicas. Se você chafurdar nos discos, vai descobrir muito ali em torno do afrofuturismo, desse flerte com tecnologias", comenta o músico.

Na opinião do escritor Jacques Barcia, autor de ficção científica e também consultor de inovação do filme "Bacurau", definitivamente é possível de se enxergar uma raiz de ficção científica no núcleo duro do manguebeat e que hoje, movimentos como o sertãopunk ou então o cyberagreste são como um eco do manguebeat. "Mas esse também é o mesmo movimento de escritores de fantasia nos últimos dez anos. Estão tentando fazer uma fantasia enraizada no folclore local – uma geração tentando se ver representada no que lê e escreve. Esse 'motor de mudança', se o pudermos classificar assim, fala muito sobre as pautas identitárias do Brasil, como diversidade, representatividade e identidade locais que devem correr ainda mais a hegemonia da cultura sudestina no Brasil. Isso reflete já hoje nas várias reações racistas e no nacionalismo colonial refletido por vários setores da sociedade", argumenta o futurista.

Imagem exposta na exibição "Exposição Chico Science" em 2016, no Museu da Cidade do Recife. Artistas foram convidados a criar imagens inspiradas nos 50 anos de nascimento de Chico Science.

Jorge du Peixe também reconhece como o momento atual se parece muito com aquele no qual o manguebeat floresceu. "O movimento distópico com a tomada da ultradireita no mundo está acontecendo de novo, mas acho que isso é cíclico. De tempos em tempos as coisas se alteram, como o intervalo das marés do mangue também. Nesses intervalos, tudo se transforma. Acho que fazer essa analogia faz sentido, porque a gente continua aqui latente, vivo, fazendo as coisas fluírem a partir da música também calcada nessas intenções."

Jorge reconhece que o avanço tecnológico, em parte, contribuiu com a possibilidade de dar voz às pessoas e permitir que elas resistam e briguem pelos seus direitos. "Acho que as grandes sociedades sempre privaram os desfavorecidos dessas ferramentas, só que hoje todos têm acesso a elas", comenta o artista. "As respostas aos açoites modernos vêm quase que de imediato, mas falta muita coisa ainda e aliadas à tecnologia também vêm as trapaças digitais. Robôs em prol de causas erradas, robôs que facilitam eleições, que trazem fake news e a gente já depara com isso nos filmes de ficção científica – low tech e high tech, e sempre os desfavorecidos tentando por todas as vias fazer uso do que tem e os grandões, os tubarões, sempre na manipulação controlando as coisas. Isso é uma coisa que existe desde o começo dos tempos, mas hoje tem se tornado público."

Como estrategista e professor, Felipe Teobaldo se vê profundamente impactado no que ele se tornou hoje pelo efeito do manguebeat em sua juventude. "Me sinto um cangaceiro digital. Ser esse futurólogo hoje é se enfiar em ambientes vastos, às vezes inexplorados e por muito tempo assustadores também. Para trabalhar com o futuro hoje, num momento de tanto medo à frente, é preciso couro grosso e uma dose grande de desejo de aventura. Ser recifense, neto de sertanejo, me criou para isso", ele declara.

Para Barcia, o manguebeat gerou essa percepção de um novo nordeste porque o movimento foi capaz de romper a barreira da cultura pop produzida e consumida pelo sudeste. "Eles foram percebidos como um novo nordeste porque o sudeste/sul percebe o resto do Brasil como deserto ou mato, sendo apenas o sudeste/sul detentor da civilização. E até por esse ponto de vista, talvez, essa percepção não seja nem tão diferente. A 'turma do Ceará', com Belchior, Fagner etc era consumida como exótica, iguaria que falava coisas da metrópole com sotaque de nordestino. Nação Zumbi, Mundo Livre, Mestre Ambrósio, Jorge Cabeleira, todas essas bandas tocavam algo conectado globalmente com sotaque exótico. Para cá, o valor do manguebeat não foi reinventar o Recife — é importante dizer que o 'movimento' é essencialmente da Região Metropolitana do Recife, com raízes/ramificações de algumas cidades da Zona da Mata e Agreste –, mas fazer o que os Armoriais fizeram décadas antes, só que em negativo. Enquanto Ariano Suassuna conectava o interior de Pernambuco e Paraíba a Shakespeare e Milton, o manguebeat conectava raízes africanas e cultura de rua a William Gibson e às raves de Londres. De várias formas, o Recife voltou às suas origens cosmopolitas, conectadas ao mundo todo."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.

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