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Lidia Zuin

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Amazofuturismo e Cyberagreste: por uma nova ficção científica brasileira

Lidia Zuin

02/09/2019 16h20

A ficção científica foi inaugurada como gênero quando Mary Shelley publicou "Frankenstein" em 1818, no Reino Unido. No Brasil, tivemos uma primeira onda proto-ficção científica com autores como Machado de Assis e o conto "O Imortal" (1882) ou ainda o livro "O Doutor Benignus" (1875), escrito por Augusto Emílio Zaluar, que teve como inspiração os autores Júlio Verne e Camille Flammario, sendo então conhecido como um "romance científico".

Oficialmente, no entanto, o primeiro autor a se especializar no gênero por aqui se chama Jerônymo Monteiro, publicando na segunda metade do século 20.  Foi com ele que a "ficção científica brasileira passou a existir como um universo literário à parte da literatura, criando regras e métodos próprios, além de formar um público específico", como definiu Marco Bourquignon em 2009.

Foi com Monteiro que surgiu também a primeira geração de escritores brasileiros de ficção científica – isto nas décadas de 1960 e 1970. Essa geração ficou conhecida como GRD. A sigla representa o nome do editor baiano Gumercindo Rocha Dorea, responsável pela divulgação de autores da FC internacional como Robert A. Heinlein e Ray Bradbury, e a apresentação de artistas nacionais ao mercado editorial, como foi o caso de Jerônymo Monteiro.  Nessa mesma época, Jorge Luiz Calife ganhava destaque internacional por ter escrito o conto "2002" como uma continuação de "2001: Uma Odisseia no Espaço", de Arthur C. Clarke, que, inclusive, ciente dessa obra, chegou a escrever uma continuação inspirada pelo trabalho de Calife, cujo nome é citado nos agradecimentos do romance "2010: Uma Odisseia no Espaço 2" (1984).

Mais organizados e numerosos, os fãs de ficção científica brasileira, então, passaram a se concentrar no Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC), existente até hoje e que conta com um fanzine original, a revista Somnium, bem como uma premiação específica, o Prêmio Argos. Por outro lado, nos anos 90, a Editora Record passou a publicar a revista "Isaac Asimov Magazine", que contou com apenas 25 edições, mas que foi importante para revelar novos nomes da segunda onda da FC brasileira, como foi o caso de Gerson Lodi-Ribeiro e Bráulio Tavares.

Nesse momento, os autores nacionais se dividiam entre uma abordagem mais internacionalista, como era o caso de Calife, enquanto escritores como Tavares defendiam uma FC mais poética. e Roberto de Sousa Causo inaugurava a interpretação brasileira do cyberpunk a partir do subgênero tupinipunk refletido em obras como "Questão de sobrevivência" (2001), de Carlos Orsi, e "Vale-tudo" (2010).

Diferente do cyberpunk americano, o tupinipunk tinha (e ainda tem, com publicações como o recente conto "A Luta do Cangaceiro Jedi") uma alta carga satírica. Nas palavras de Ginway, o gênero "ilustra uma resistência ao controle político ou às invasões corporativas, que constituíram parte das novas políticas neoliberais implementadas após o final da ditadura militar". Mais tarde, por volta do ano 2000, as histórias tupinipunks começaram a representar ciborgues "assumindo as mentes ou os corpos de políticos, cientistas e líderes militares, revelando a manipulação dos sistemas democráticos ou de cidades supersolicitadas."

Hoje, já na quarta onda da ficção científica brasileira, vemos autores que exploram subgêneros populares atualmente, como o afrofuturismo, no qual se destaca a obra "O Caçador Cibernético da Rua 13", de Fábio Kabral, ou o romance steamfunk de "O Baronato de Shoah", de José Roberto Vieira, ou a versão LGBT, a partir de movimentos como o Manifesto Irradiativo. E acontece nestes dias a ascensão de uma nova frente especulativa: o cyberagreste.

A inspiração se tornou popular (e até viral) depois que o ilustrador Vitor Wiedergrün iniciou uma série de trabalhos refletindo sobre os arquétipos da cultura nordestina e do cangaço com inspiração cyberpunk. "Eu sempre gostei da cultura brasileira e achava estranho não ver nada dessa cultura em obras de ficção e fantasia. Com o tempo, comecei a pensar e imaginar algumas fusões e, logo de cara, pensei como seria o Brasil em um futuro cyberpunk. Fiz algumas pesquisas e uns esboços de vestimentas do sul e do nordeste, mas acabei optando por iniciar os desenhos voltados para o sertão cyberpunk, daí o surgimento da série Cyberagreste", conta o artista.

Ilustração de Vitor Wiedergrün.

Foi entrando em contato com esse material que a escritora e graduada em Estudos Literários Laisa Ribeiro deu início a uma primeira obra literária que trouxesse aquilo que Wiedergrün explorou em suas ilustrações. "Eu não consegui achar nenhuma informação em março de 2018, então fui conversar com o artista para perguntar se eu poderia escrever algo sobre e ele foi muito gentil. O gênero não tem domínio, é livre", lembra Laisa, que teve seu conto cyberagreste "Filhos do Metal e da Caatinga" publicado na coletânea "2084: Mundos Cyberpunks."

Laisa se inspirou em obras como "O Sertanejo", de José de Alencar, e outros títulos de Guimarães Rosa e Graciliano Ramos para criar seu conto que, por fim, transformou-se em um romance ainda a ser publicado, "Sertronic". "Enquanto eu escrevia o conto, também me inspirei em outas fontes como a HQ 'Cangaço Overdrive' de Zé Wellington e Walter Geovani, bem como a fantasia nacional 'O Auto da Maga Josefa', de Paola Siviero. Também fez parte da minha pesquisa a biografia de Maria Bonita, escrita por Adriana Negreiros", detalha Laisa. "Naquele momento, percebi que o nordeste já flertava com a ficção científica há muito tempo."

Em seu conto, Laisa nos apresenta a história de uma vaqueira robótica do sertão nordestino. Sua trajetória é marcada por elementos de crítica social e política que chamaram a atenção do seu pai, que cresceu no interior mineiro convivendo com muitos vaqueiros. "Ele achou estranho no começo ver uma ginoide, isto é, uma robô feminina, trabalhando como vaqueira, porque ele sempre remeteu essa profissão aos homens. Mas logo ele achou muito divertido e especial, porque ele sabe que existem mulheres vaqueiras. Para ele, agora, ginoides, vaqueiras e cangaceiras se tornaram uma ideia corriqueira. A literatura tem esse poder transformador. Ela muda comportamentos e pensamentos", relata a escritora.

Nesse sentido, Laisa acredita que a representatividade na arte, bem como na literatura, são de extrema importância não apenas para fazer com que os leitores e fãs se sintam representados, mas também para poder explorar ideias que aparecem ali como metáfora. "A inteligência artificial, por exemplo, é uma metáfora perfeita para exploração e desigualdade social num futuro em que os robôs vão ser vistos apenas como máquinas de gerar lucro, sem sentimentos e necessidades. Isso não é muito distante de como a população pobre é vista hoje em dia. Um operário metalúrgico brasileiro que entra na fábrica de dia e só sai de noite não está muito distante de ser tratado como um robô. Assim, o cyberpunk proporciona um local para pensar nessas questões de maneira lúdica e transgressora", Laisa explica. Ao criar histórias que se identifiquem com elementos da cultura brasileira, então nos tornamos mais conscientes daquilo que acabamos renegando ou até mesmo desenvolvendo preconceitos, como é o caso da cultura nordestina, também muito marcada por lutas sociais e políticas – de Canudos ao cangaço.

Foi a partir dessa perspectiva que o ilustrador João Queiroz passou a explorar também a cultura amazônica a partir de uma perspectiva futura com o que ele chamou de Amazofuturismo. "O amazofuturismo surgiu de uma convergência de inspirações e necessidades. Alguns meses antes de criar a ilustração Cyberamazon, eu estava interessado no cyberpunk e toda sua teoria e estética. Fiz alguns trabalhos com esse tema e logo percebi que a estética atual do gênero estagnou em um retrofuturismo dos anos 80, porque, claro, Blade Runner, Akira, Alita e Ghost in the Shell continuam sendo grandes fontes de inspiração", explica o artista que, assim como Wiedergrün, também percebeu a prevalência de cores como magenta e ciano na estética do cyberpunk, bem como outros arquétipos como o samurai robótico, as megalópoles asiáticas e o kanji. "Isso não faz parte da minha realidade, então pensei: 'por que não trazer o cyberpunk para o Brasil?"'

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Ilustração de João Queiroz

Diferente do tupinipunk que, apesar de trazer uma referência à uma tribo indígena brasileira, não necessariamente se concentra nos espaços das comunidades nativas, Queiroz decidiu implementar uma visão futurista à floresta amazônica e suas culturas também com inspiração no solarpunk, subgênero que se contrapõe à escuridão e pessimismo do cyberpunk ao imaginar um futuro mais sustentável. "A Cyberamazon foi minha primeira tentativa de inserir uma personagem próxima da minha etnia num trabalho de ficção científica, algo que sinceramente nunca tinha visto representado. Por eu ter nascido no norte do país e por ser caboclo, senti maior afinidade em trabalhar com os temas lá de minha terrinha e minha ascendência", comenta Queiroz.

Foi pensando nisso que também o escritor e editor da Lendari, Mário Bentes, escreveu seu conto "O Pajemancer" publicado na coletânea "2084: Mundos Cyberpunks". Sendo ele morador de Manaus, Bentes decidiu revisitar alguns dos pontos históricos e turísticos da capital amazonense para pensar um futuro tecnológico e noir adaptados ao contexto brasileiro. Foi por conta da adesão dos escritores a esses novos subgêneros nos contos publicados na coletânea "2084" que o editor passou a considerar projetos futuros que estejam focados apenas em histórias no contexto cyberagreste e amazofuturismo. Também os ilustradores Vitor Wiedergrün e João Queiroz querem ampliar seu trabalho explorando novas regiões e culturais locais brasileiras, sendo que um dos mais recentes trabalhos de Wiedergrün incluem a exploração da cultura gaúcha.

Diante do momento atual, no qual somos confrontados com um aumento de 150% das queimadas na Amazônia, são obras de arte como estas que são capazes de retomar a visão do brasileiro diante de um futuro mais positivo ou mesmo mais crítico, justamente como uma forma de extrapolar questões do presente a partir da construção de cenários futuros. Ainda que a ficção científica não seja responsável por prever o futuro, ela, de qualquer maneira, acaba influenciando no nosso ponto de vista como qualquer outra expressão artística. "A literatura é um espaço político e precisa mostrar todos os tipos de populações que sofrem preconceito: indígenas, negros, LGBTQ+. O cyberpunk proporciona mostrar uma luta no futuro, metaforizada por ginoides e androides, mas que já é uma luta diária", defende Laisa. Ademais, esses subgêneros nos permitem deslocar a produção ficcional brasileira do contexto cosmopolita Rio-SP, então, demonstrando a riqueza da cultura brasileira, seja em sua vastidão geográfica ou na diversidade de expressões e populações.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.