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Já flertou com o abismo hoje? 'The Sinner', da Netflix, e o caos de existir

Lidia Zuin

18/07/2020 04h00

Um dos maiores sucessos da plataforma Netflix, o seriado "The Sinner" teve sua terceira temporada recentemente lançada no Brasil. Depois de conquistar a audiência com uma primeira temporada protagonizada pela atriz Jessica Biel, a série retornou com um enredo que a mantém na classificação das narrativas de crime "whydunnit", isto é, histórias em que não importa quem cometeu o ato, mas sim o motivo.

Com a recorrente presença do detetive Ambrose, interpretado por Bill Pullman, "The Sinner" conta não apenas com o ofuscante talento do ator como também a presença de vilões bem construídos e representados, como é o caso de Jamie (Matt Boomer) e Nick (Chris Messina).

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Enquanto a primeira temporada tratou de uma dona de casa que comete um crime após receber um gatilho de um trauma reprimido, a segunda temporada tratou de seitas e como elas podem levar pessoas comuns a cometerem atos condenáveis — para quem assistiu à série documental "Wild, Wild Country", também da Netflix, essa temporada de "The Sinner" pode ser especialmente interessante. Fãs de "True Detective" podem encontrar no seriado produzido por Biel um substituto enquanto novas temporadas não são lançadas: trata-se de uma narrativa cheia de simbolismos, questões psicológicas e, em especial nessa terceira temporada, também filosóficas.

A mais recente parte de "The Sinner" conta a história de Jamie, um professor que mora em Dorchester, subúrbio de Nova York, prestes a se tornar pai. Apesar de levar uma vida comum e ser casado com uma mulher incrível, Leela (Parisa Fitz-Henley), há uma "coceira" que sempre o perturba. Ao prestar atenção em seu entorno, em especial durante os momentos no trem, Jamie frequentemente se incomoda com o comportamento e as atitudes de pessoas que jogam lixo no chão ou que ouvem música sem fone de ouvido. A pergunta que é fica é: por que as pessoas agem desse jeito, ou melhor, por que é permitido que sejam assim?

Encurralado pela opressiva normalidade e privilégio de sua vida versus a inconformidade pelo mundo à maneira como ele é, Jamie decide retomar contato com um amigo da faculdade, Nick. A trama se desenvolve de forma não-linear, sendo frequentemente "perturbada" pela inquietante presença dessa figura do passado do protagonista. A interpretação de Messina, que tem como destaque os olhos fixados e a expressão intensa, deixa à primeira vista uma impressão de que talvez Nick tivesse sido um affair do passado do professor (até mesmo sua esposa questiona isso), mas, na verdade, não se trata de uma tensão sexual: Nick, na realidade, foi uma pessoa que conseguiu diagnosticar essa inquietação de Jamie em uma aula que frequentaram na faculdade e, a partir daí, nasceu uma amizade baseada em citações de filósofos como Friedrich Nietzsche.

A série não é ingênua ao usar os principais termos e conceitos do filósofo alemão, como é o caso do niilismo, do conceito de "super-homem" (Übermensch), ou de moralidade de rebanho. Na realidade, em muitos momentos essas ideias são resgatadas com certo deboche, considerando que muitas vezes são adolescentes revoltados que se sentem atraídos por essas perspectivas do filósofo que, por outro lado, também foi apropriado pelo regime nazista. Em "The Sinner", não há nenhuma referência a esse último ponto, mas em especial à questão de o indivíduo se descobrir superior ao enxergar a sociedade do alto, a partir de um ponto de vista separado e altivo, acima da moralidade de rebanho e que, portanto, está predestinado ao sucesso e à singularidade. Ao assumir que nada faz sentido, que não há um motivo para a existência ou que a moralidade e a ética de nossa sociedade são ideais postiços, Nick e Jamie supõem que é abraçando o caos que poderão transcender a normalidade e se tornarem livres — ou, nas palavras do próprio Nietzsche, "É preciso ter o caos dentro de si para gerar uma estrela dançante".

Curiosamente, Nick prova-se certo ao desenvolver uma carreira com a qual enriquece, enquanto que Jamie preferiu seguir uma vida mais pacata. Nick aparentemente não possui nenhum relacionamento amoroso ou qualquer conexão com sua família, enquanto Jamie é casado e está à beira de mais uma crise. Em uma brilhante cena na qual Jamie reflete, angustiado, sobre qual é o objetivo de trazer uma nova vida ao mundo, Leela retruca: sua inquietação parece mais um conflito elitista e clássico de um homem branco. A discussão não gira em torno de uma abordagem caricata ou "militante", mas deixa nas entrelinhas a ambígua situação em que as atitudes e pensamentos de Nick e Jamie encontram ressonância: essa (não tão) nova classe de homens que se sentem superiores, que flertam com ideais opressivos e que geralmente são indexados a partir do conceito de "incel" ou celibatários involuntários.

Filmes como "O Clube da Luta", ou mesmo a mais recente adaptação de "Coringa", protagonizada por Joaquin Phoenix, são exemplos de obras que condensam esses pensamentos de retroação entre uma sociedade que maltrata e isola o indivíduo, assim moldando-o em uma revolta que devolve a violência sofrida. Enquanto as duas obras passam brevemente por temas políticos e econômicos, ao criticarem a maneira como o capitalismo funciona, "The Sinner" foca mais na psicologia, em uma sociologia de como nos esquecemos de que nada faz sentido, apenas nos anestesiamos em nossos papéis sociais no teatro da normalidade. Jamie atiça o detetive Ambrose a olhar para o abismo e ver a si mesmo como uma pessoa que também está arruinada e machucada pelo que a sociedade lhe devolveu, mas Ambrose tem como técnica justamente utilizar-se da empatia como forma de convencer o suspeito a entrar em seu jogo e, então, cair em sua armadilha.

A terceira temporada de "The Sinner" é especialmente envolvente, com vários momentos que parecem viradas de chave. Alguns podem sentir que o final da temporada foi súbito demais e que talvez não tenha honrado a complexidade das personagens, mas quando levamos em conta que Jamie nunca passou por uma autodescoberta  — fora apenas manipulado pela toxicidade de sua amizade com Nick –, entendemos que ele nunca realmente abraçou o caos. Diferentemente de Nick, que conduz a própria morte com uma frieza psicopata, Jamie é um perpetrador como os demais vilões das temporadas passadas. Aqui, importa menos quem é o ator dos crimes do que a razão de cometê-los e, nesse caso, "The Sinner" continua prova que a loucura (ou o mal) está mais perto do que imaginamos. Só precisamos de um empurrãozinho.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.