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Como um meme brasileiro virou um manifesto metamoderno da Protomartyr

Lidia Zuin

10/04/2020 04h00

No início de março, a banda norte-americana Protomartyr chamou a atenção dos brasileiros com o lançamento de um peculiar videoclipe para o single "Processed by the Boys". Conhecidos na cena indie como uma das mais promissoras bandas de pós-punk da contemporaneidade, o grupo conquistou a audiência brasileira ao trazer uma paródia de um famoso meme local: a briga travada entre Gil da Esfirra e Galerito no programa amazonense Canal Livre. Em outras palavras, o que descobrimos é que a inusitada cena de um homem desferindo socos e chutes contra um fantoche enquanto um cantor continua pleno em seu playback eternizou não apenas na memória afetiva dos brasileiros, mas também chegou aos Estados Unidos como um icônico exemplo de falhas na televisão.

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Em entrevista, o vocalista da Protomartyr, Joe Casey, me contou que o meme não chegou a ficar popular por lá, mas a banda acabou tomando conhecimento do vídeo através de um compilado. "A cena estava provavelmente inserida entre um repórter vomitando e um animal correndo em um set de gravação ou algo do tipo. Mas o clipe foi suficientemente chamativo para ficar preso na minha cabeça por um ou dois meses depois de ter visto e então precisei fazer um vídeo a partir desse conceito, uma ideia bizarra que não funcionou." Foi depois da publicação do clipe que Casey foi notificado por centenas de brasileiros que reconheceram a referência e então mencionaram que se tratava de um programa de televisão nacional que não só teve esse trecho viralizado na internet, mas que também se tornou tema de um documentário produzido pela Netflix, "Bandidos na TV".

A série documental de sete episódios narra a ascensão de Wallace Souza como apresentador do popular programa Canal Livre, que expunha crimes violentos em horário nobre, até se tornar deputado e então acusado de ordenar crimes, de modo a aumentar a audiência de seu programa. Assim como muitos que tiveram acesso ao meme do Gil da Esfirra versus Galerito, Casey também não tinha ideia do contexto no qual aquele vídeo e programa se inseriam. No clipe de "Processed by the Boys", somos apresentados a uma paródia da cena real, estilizada inclusive na edição do vídeo para que pareça realmente advindo do começo dos anos 2000, momento em que o incidente ocorreu. Com roupas coloridas e típicas à época, os atores assumem uma postura que oscila entre o natural e o espontaneamente posado (para quem se lembra dessa ilustre comunidade do Orkut), o que faz muito sentido à maneira como se portam os verdadeiros personagens do meme.

Essa estética não nos é necessariamente inédita quando lembramos da maneira como os comediantes Hermes e Renato se apropriavam de tropos da chanchada para fazer humor com som de rock, que foi o que me fez pensar, em um primeiro momento, que se tratava de uma banda brasileira devido à particularidade da referência e da mensagem ali passada. Mas não. É uma banda americana readaptando um conteúdo brasileiro que, por sua vez, usa moldes de programas de TV importados dos Estados Unidos. É este o cenário maluco em que nos encontramos em pleno século 21, à beira do início da década de 2020: um cenário pós-colonialista de expansão globalizante e que já não mais se encaixa na perspectiva pós-modernista, mas sim metamodernista, como já comentei por aqui em outra oportunidade.

No caso, a Protomartyr já tem uma tradição de fazer videoclipes mais elaborados, inclusive utilizando-se do recurso da legenda porque as letras sempre carregam em sua poética autoral uma mensagem crítica e sufocantemente absurdista. Em "Don't go to Anacita", vemos uma adaptação do curta "Stairway to Lenin", de Zbigniew Rybzynski, no qual escadas intermináveis enquadram a jornada não da ascensão e queda da União Soviética, mas sim o círculo vicioso do capitalismo. Em "Wheels of Fortune", outro clipe da banda também dirigido por Yoonha Park, o capitalismo reaparece mais uma vez para dar o tom caótico de uma colagem de cenas que reúnem naturezas mortas, fotografias de tons renascentistas e iconografias como o vanitas (caveira), que não apenas era usada no Renascimento como uma lembrança da morte (memento mori), mas também uma mensagem de quão fútil é a nossa vaidade. E tudo isso entre versos como "water as commodity all is comedy"(água como produto, tudo é uma comédia), "wrath for sale and it is always Christmas/I decide who lives and who dies" (fúria por vendas e é sempre Natal/eu decido quem vive e quem morre). 

Em "Processed by the Boys", no entanto, há um tom bem humorado que nos recorre à maneira como o metamodernismo encara os problemas contemporâneos. Casey comentou que ele sabia que os diretores David Allen e Nathan Faustyn seriam capazes de recriar o clipe sem diminuir o conteúdo original e, ao mesmo tempo, também acrescentar elementos que tivessem a ver com a música. "É engraçado que eu esteja falando sobre o vídeo original de um homem tentando bater num fantoche como se fosse algum tipo de obra de arte em um museu, mas, ei, meio que é!", ele comenta. Afinal, quando temos, em um museu, uma banana avaliada em US$12 mil sendo comida por um artista performático ou quando temos um visitante caindo em buracos abertos no chão da galeria, o limiar entre a mensagem crítica da arte contemporânea e o absurdo da realidade se torna ainda mais tênue.

Diferente do vídeo original, a Protomartyr endereça também a violência policial representada por seguranças que não existem no trecho do programa Canal Livre. Quando tudo descamba em agressão, não apenas o público antes contido se sente no direito de participar da revolta quanto os seguranças se vêem no direito de usar a força para controlar a situação. Tudo isso enquanto o cantor continua sua música com mais ou menos desenvoltura e novos artistas fazendo malabarismos aparecem como uma distração ao caos que se instaura no estúdio. A metáfora é clara demais para precisar ser explicada. Agora, o que a banda não contava é que o lançamento do vídeo se daria junto à chegada do novo coronavírus, o que fez com que alguns usuários do Reddit enxergassem nos versos "a foreign disease washed upon the beach" (uma doença estrangeira chega à praia) fizessem sentido ao momento atual. Mas, obviamente, não havia como prever.

Na realidade, o que Joe Casey quis fazer para o novo álbum "Ultimate Success Today" foi dar um encerramento aos temas que a banda vem trabalhando nos últimos quatro álbuns: "Eu queria que fosse algo sobre o fim ou a morte de uma pessoa. Ter todo esse medo cósmico, mundano, concentrado em uma pessoa lidando com a morte e com a própria morte, deitada na cama no calor do verão, indo e voltando nos seus pensamentos. Talvez, enquanto os números de mortos nessa pandemia crescem em um tamanho abstrato e nós perdemos a humanidade a cada perda, vai ser importante pensar como cada morte é o apocalipse pessoal de alguém em vez de tentar transformar essa realidade em um filme de desastre hollywoodiano."

Depois de os primeiros álbuns "No Passion All Technique" (2012) e "Under Color of Official Right" (2014) oscilarem entre o desespero e a esperança, veio ainda "The Agent Intellect" (2015) com uma abordagem mais introspectiva, enquanto que "Relatives in Descent" (2017) abre caminho para o mais recente lançamento ao endereçar questões como o que significa ser humano ou o que, de fato, é o bem e o mal. Para uma banda que sempre esteve imersa em um contexto de fúria e desordem, não fica difícil ter o momento atual se encaixando em seus comentários. Como descreveu o crítico Randall Roberts para o jornal LA Times, após assistir à performance da banda na edição de 2014 do SXSW, "Protomartyr não alcançou nenhuma lista dos mais procurados da noite e realmente não está nos comentários pós-festival. Em uma indústria que se baseia em imagem, atitudes chamativas e cantores bonitos que não irão colocar a camisa por dentro da calça com cinto sem ser por ironia, a Protomartyr não tem medo de abordar assuntos ruins que a maioria das performances em busca de fama evitam".

Em "Processed by the Boys", Casey traz desde o título da música uma palavra que é um desafio para os compositores por ter tantos significados, mas, neste caso, o cantor diz que "processed" (processado) se trata de uma palavra usada nas instituições como um termo neutro que esconde a brutalidade dos sistemas. "A comida é processada. Prisioneiros são processados. Se seu pedido na assistência médica é completado, ele é processado por um computador e escaneado por um funcionário. Eu queria escrever uma música que parecesse simples, mas que gerasse uma reflexão com diferentes significados. Afinal, tem muito a se processar." Coincidentemente, o termo "processar" também é usado da mesma forma no português, o que nos possibilita correlacionar essa ambiguidade no termo e a sensação opressiva, de esmagamento, que é tão recorrente nas composições da banda.

Assim, ver um vídeo engraçado com uma letra brutal sendo lançada nos dias de hoje não nos surpreende, mas, na realidade, nos cativa por traduzir exatamente o nosso sentimento enquanto sociedade. Afinal, fomos nós mesmos quem criamos e compartilhamos memes sobre a terceira guerra mundial quando os Estados Unidos bombardearam o Irã no começo do ano. Somos nós que criamos e compartilhamos piadas sobre a covid-19 enquanto vemos pessoas sendo hospitalizadas e morrendo devido ao vírus. No melhor formato tragicômico, a maneira como absorvemos nossa realidade é através de piadas que tentam, por um lado, tornar a vida mais leve e até talvez mais esperançosa sem que, no entanto, percamos o pessimismo e a ironia de quem, ainda assim, está consciente do problema. Nada mais metamoderno do que o vídeo de "Processed by the boys" e do que a nossa capacidade de rir de um meme advindo de um programa de TV envolvido em um esquema criminoso, com formato americanizado e que, por isso, passa essa sensação familiar de forma global e globalizada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.