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O nazismo para além do plágio e do cenário do discurso de Roberto Alvim

Lidia Zuin

22/01/2020 04h00

Texto escrito por Lidia Zuin e Vanessa Bortulucce*

Uma das mais recentes polêmicas do atual governo foi a publicação do discurso de Roberto Alvim, então secretário da Cultura do governo Bolsonaro. O que era para ser a divulgação de uma série de editais de apoio à produção cultural se transformou em um teatro de horrores arquitetado pelo ex-secretário que, aliás, moldou sua carreira como dramaturgo antes de assumir o posto administrativo.

Em análise publicada na seção "Entendendo Bolsonaro" do UOL, os historiadores Jorge Paulino e Igor Rocha fazem uma primeira dissecação do vídeo e da trajetória do secretário que foi exonerado do cargo após a divulgação do discurso. Afinal, tornou-se evidente, apesar de ter sido considerada uma "terrível semelhança" pelo autor da gravação, que a peça possui muitos pontos de conexão com a retórica do Ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels.

Tanto no estudo da história (da arte ou geral) quanto na comunicação, Goebbels é um exemplo controverso de sucesso na combinação de elementos estéticos, retóricos e semióticos na indução e absorção de uma mensagem pelo povo. Durante o período nazista na Alemanha, meios de comunicação como o rádio e o cinema foram mídias que Goebbels usou com afinco e com a ajuda de outros profissionais, como foi o caso da cineasta Leni Riefenstahl, famosa pelo filme de propaganda "Triunfo da Vontade", lançado em 1934. Além disso, também pinturas, cartões-postais, esculturas, cartazes, banners, revistas, tabloides, canções e artigos de papelaria (que possuíam um catálogo próprio) eram meios importantes na construção e legitimação do ideário do partido.  

Toda essa estratégia é analisada no documentário "Arquitetura da Destruição", de 1989, que mostra o poder simbólico e político que a estética nazista exerceu sobre a população. Com a distância do tempo e também a distância geográfica, no entanto, chegamos a um ponto no qual essas questões são observadas ora com neutralidade instrumental e tecnicista, ora com fascínio e um esvaziamento simbólico.

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Essa foi uma questão explorada por vários autores, dentre eles Susan Sontag que, em um artigo intitulado "Fascinating Fascism", trata justamente sobre como as gerações mais novas acabaram absorvendo apenas uma camada desses fatos históricos, por eles próprios terem sido pensados de maneira estética para serem atraentes e funcionais. Em suas palavras:

"Os uniformes da SS eram estilosos, bem cortados, com um toque (mas não muito) de excentricidade. Compare com os tediosos e não malfeitos uniformes do exército americano: jaqueta, camisa, gravata, calças, meias, sapatos com cadarço, essencialmente roupas de cidadãos comuns. Os uniformes da SS eram justos, pesados, rígidos. As botas faziam as pernas e os pés parecerem pesados, encapados, forçando quem as vestisse permanecer ereto. Como a orelha do [livro] SS Regalia explica: 'O uniforme era preto, uma cor que tinha importantes subtons na Alemanha. Com isso, a SS vestia uma variedade de decorações, símbolos, medalhas que distinguiam as classes, desde runas no colarinho à caveira. A aparência era tanto dramática quanto ameaçadora.'"

Mesmo nos dias de hoje, quando visitamos a Alemanha, não é difícil de encontrar vendedores ambulantes ou mesmo lojas licenciadas em Berlim, nas quais são vendidas réplicas de broches, uniformes ou mesmo relíquias das guerras passadas. Também, em qualquer outro país europeu, não é raro encontrar em brechós ou mesmo em lojas especializadas em artigos militares peças de uniformes originais das guerras – sejam eles com ou sem a suástica ainda anexados à indumentária. Afinal, o símbolo se tornou um tabu, mas o que ele representa, tem se transformado de maneiras mais ou menos sutis, ambíguas e ressignificadas por novos movimentos como a alt-right ou direita alternativa.

O filme "The Night Porter" (1974) se tornou uma referência audiovisual do fetiche pela estética nazista

Em outras palavras, vimos ao longo das últimas décadas artistas punk usarem suásticas em suas 00jaquetas de couro como uma forma de provocação e também vimos uniformes nazistas serem redesenhados com látex nas cenas sadomasoquistas. Vimos bandas de música industrial como a Laibach se apropriando de diversos símbolos militaristas de forma tão ambígua que até Kim Jong Un convidou os músicos eslovacos para um concerto na Coreia do Norte em 2015

Mas apesar de não se utilizar de nenhum símbolo gritantemente nazista como a suástica ou o uniforme da SS, o vídeo de Roberto Alvim é tão descaradamente elogioso à retórica do regime hitlerista que sua divulgação lhe custou o cargo público – talvez menos pela sua latência nazista do que pela sua falta de discrição, como comentou Gilberto Maringoni no Twitter.

Entre o tabu de se apontar algo como nazista e acabar caindo na cilada da Lei de Godwin e a obrigação moral de denunciar inclinações fascistas, o que vimos no discurso de Alvim foi não apenas uma adaptação que o ex-secretário julga ter sido acidental do registro de um discurso de Goebbels publicado no livro "Joseph Goebbels, Uma Biografia", de Peter Longerich, mas um reforço escrachado e caricato das ambições já presentes no governo atual.

Da linguagem corporal austera ao posicionamento dos elementos de cena, também já analisados por Paulino e Rocha, há uma montagem (técnica profundamente explorada pelo regime nazista) crua e descarada demais para não levar o espectador ao desconforto. Alvim inicia seu discurso falando sobre o pedido de Jair Bolsonaro para que o então secretário fizesse uma cultura que "não destrua, mas salve a nossa juventude", então julgando que quando a cultura "adoece", então o povo também adoece e, por isso, devemos nos firmar na "nobreza de nossos mitos fundantes." 

Ora, o que mais amedrontava parte dos teóricos e "estetas" europeus, antes mesmo da fundação do partido nazista, era a chamada "degeneração cultural" que acreditavam ser o principal fator de "caos" e "declínio" da humanidade. O Bolchevismo, a arte moderna, a excessiva urbanização – que estava acabando com os valores do campo, tradicionais e "eternos" -,  a sociedade cada vez mais anônima, acelerada, dinâmica – tudo isso atestava a degradação dos homens. A modernidade era uma doença, uma espécie de câncer que deveria ser exterminado antes que fosse tarde demais.       

Quando se usam termos da biologia na análise da sociedade, faz-se um convite ao desastre. O darwinismo social, medonha teoria desenvolvida nos fins do século XIX, foi um componente da maioria das teorias raciais, culturais e políticas da extrema direita europeia. Na fala de Alvim, "doença", "nobreza" e "juventude", organizadas como estão, ressoam muitos dos principais postulados do nacional-socialismo, o mito do "corpo do povo": a defesa de uma sociedade "saudável" (a partir da eliminação dos "vírus" e "bacilos" indesejáveis no corpo da grande nação), a luta por um país eternamente jovem (o que, para Hitler, significava o culto absoluto à beleza da Grécia e Roma antigas, forçando goela abaixo da população corpos inexistentes, posto que eram esculpidos no mármore, idealizados). A "nobreza", por sua vez, qualifica os tais "mitos fundantes", algo bastante complexo de se estudar no caso brasileiro, dentro destes termos. 

Cena do filme Olympia, de Leni Riefenstahl.

"Mitos de fundação" foram muito usados na retórica nazista – mais uma vez, o fascínio de Hitler pelas lendas nórdicas, pela Loba de Remo e Rômulo, pela mitologia grega, são evidentes. Um conjunto de distorções, equívocos e falácias, para justificar a existência de uma "raça superior" que seria digna de ocupar as terras deste mundo. Ideias que Hitler também retira das óperas de Wagner – antissemita, fascinado pelos tais "mitos de fundação", glorificadores da "Nação Ariana". O discurso de Alvim, com a música de Wagner ao fundo, atesta que o ex-secretário da cultura tinha conhecimento do que estava falando. Obviamente, a questão, aqui, não é a obra do compositor em si, mas o significado que ela adquire quando combinada com outros elementos ligados ao ideário nazista. No vídeo de Alvim, a disposição dos objetos, a fala pausada do ex-secretário, o plágio do texto de Goebbels, todos estes componentes fazem com que a música de Wagner, que soa ao fundo, seja a confirmação de que Alvim sabia o que estava fazendo.                   

Nesse sentido, quando falamos de uma degeneração da cultura, também pensamos em como, durante o regime nazista, o governo do Terceiro Reich chegou a classificar o que seria uma verdadeira arte e o que seria uma "arte degenerada", sendo que o ideal artístico apoiado pelo governo seriam apenas obras que remetessem ao passado clássico, que tivessem uma estética e uma temática idílica, reforçada de ideais ultranacionalistas. Obras modernistas, mesmo no caso do futurismo (que teve líderes artísticos como Marinetti, que durante um período se aproximou do fascismo de Mussolini), também eram consideradas degeneradas. 

A Arte Moderna, como um todo, fosse figurativa ou abstrata, não era desejável, pois não possuía este caráter "nacional", do qual menciona Alvim. A arte moderna possui, em essência, um projeto internacional. É este o aspecto que mais irrita Hitler, Stalin, e outros ditadores. Quando se fala em uma "arte nacional", o alerta se instaura, pois todos os projetos de estímulo e criação de uma cultura nestes moldes resultou na censura, no cerceamento da opinião pública, e no fim da pluralidade de criações artísticas. 

E Goebbels não estava sozinho neste grande projeto de "embelezamento do mundo": em 1928, Alfred Rosenberg organizou a criação da primeira organização cultural nazista: "A Sociedade Nacional Socialista de Cultura Alemã", que após um tempo teve seu nome trocado para "Defesa da Cultura Alemã". A máquina nazista começava a sua insana burocracia, com a fundação de diversas secretarias culturais e a difusão de inúmeros documentos que deixavam claro o que deveria ser a Arte: Germânica, "ariana", clássica, figurativa, heróica, tradicional, histórica. Em suma: a arte deveria ser higiênica, preparando o "corpo do Povo" para um futuro saudável. A exposição de "Arte Degenerada" mostraria a sujeira e a impureza dos tempos modernos.        

Esta exposição foi o próprio Goebbels quem organizou em 1937. Curiosamente, as 650 obras confiscadas e então disponibilizadas na exibição atraíram mais de dois milhões de visitantes, em contraste às 420 mil pessoas que visitaram uma exposição de arte nazista feita no mesmo período. Enquanto a arte nazista deveria ser uma arte clássica e que representasse ambientes naturais, paisagens equilibradas, harmoniosas e perfeitas, a arte degenerada era relacionada pelo governo a uma arte feita por deficientes mentais ou então com montagens que comparavam retratos modernistas à fotografias de pessoas com deficiência física, também perseguidas pelo regime. A intenção era ridicularizar a arte moderna, torná-la risível e absurda, e ao mesmo tempo, amedrontar a população – que correria para os braços do regime político vigente, na sua única esperança de salvação.  

Nesse sentido, usar a metáfora da cultura como passível de ser adoecida e que este tipo de cenário prejudica as pessoas é, no mínimo, constrangedora, enquanto que pedir por um retorno aos mitos fundantes é um desejo descaradamente presente no nazismo, em especial quando vemos o resgate de símbolos antigos como as runas usadas nas medalhas ou mesmo a apropriação da suástica e da mitologia nórdica com ícones como o sol negro.  Sendo assim, quando Alvim pede pelo retorno aos mitos fundantes no Brasil, ele não está falando sobre a mitologia indígena e dos povos nativos da América do Sul, mas sim de elementos como a Pátria, a família, a coragem do povo e "sua profunda ligação com Deus", todos eles valores trazidos pelos europeus. 

Não suficiente, Alvim ainda endereça o autossacrifício e uma suposta "luta contra o mal" como sendo inclinações a serem exploradas pelo território da arte. Mas o que é esse mal que nunca é endereçado senão pela constatação de que o presente cultural estaria adoecido? Afinal, eleger o mal de forma direta hoje é muito mais arriscado do que deixar o dito pelo não dito na insatisfação do humor contemporâneo. Quando tudo vai mal, é preciso eleger um culpado para sintetizar e canalizar a frustração: foi o que fez Hitler ao endereçar a decadência alemã aos judeus. Bodes expiatórios são extremamente necessários para que se instaure a visão maniqueísta de mundo. "Nós e eles": construo o inimigo, caracterizo-o para que ele ganhe vida, escondo-o sob a luz, para que as paranoias possam nascer, alimento o medo em uma agenda de propaganda extremamente eficiente.

Triunfo da Vontade, filme-propaganda de Leni Riefenstahl, em cartaz em cinema de Berlim.

Mas o que Alvim propunha era criar uma nova arte nacionalista e que servisse de "impulso" para avançarmos. Não seria esta a finalidade da propaganda em vez da arte? A propaganda, como é o caso do filme "Triunfo da Vontade" de Riefenstahl, é dotada de elementos artísticos, mas a arte não é propagandística. . 

A propaganda tem como essência utilizar-se de um sistema de persuasão e convencimento da audiência sobre questões emocionais, atitudinais, ideologias ou opiniões. A arte, muitas vezes, sequer tem uma resposta, mas apenas ajuda a formar mais perguntas, como defendeu Merleau-Ponty (apud Marta Dantas):

"O que é insubstituível na obra de arte — o que faz dela não apenas uma ocasião de prazer, mas um órgão do espírito do qual o análogo encontra-se em todo o pensamento filosófico ou político, se ele é produtivo — é que ela contém mais que ideias, matrizes de idéias; ela nos fornece emblemas cujo sentido jamais acabaremos de desenvolver, e justamente porque ela se instala e nos instala no mundo do qual não temos a chave; ela nos ensina a ver e nos dá a pensar como nenhuma obra analítica pode fazê-lo, porque nenhuma análise pode encontrar em seu objeto outra coisas a não ser aquilo que pusermos." 

Ou seja, o que assistimos com a publicação desastrosa do discurso de Alvim foi não apenas um resgate de valores tão perigosos, mas tão latentes que nos fazem pensar por que motivo continuamos reciclando ideologias de ódio e fomentando estados de guerra quando deveríamos, na verdade, ter aprendido com os erros do passado? Para além da fetichização da estética dessas ideologias, temos ainda uma possível explicação psicanalítica quando estudamos a obra de James Hillman, quando este no livro "A Terrible Love of War" trata justamente da constante presença da guerra no cotidiano e na vida do homem de um ponto de vista mitológico e psicológico.

A guerra está presente em todos os campos da nossa vida, mesmo quando estamos em estado de suposta paz: a linguagem da mídia, da própria publicidade, a maneira como nos organizamos em lógicas de competição, mas quando nós a evocamos como solução, dela não podemos tirar nada senão mais violência ou, nas palavras de Hillman: "A guerra não é um produto da razão e não produz razão." 

Em outras palavras, quando Alvim convida as pessoas a participarem do edital sob um pretexto de se produzir uma verdadeira arte nacionalista e combater a aparente degeneração da cultura atual, o ex-secretário faz um chamado às armas para a produção de propaganda, comunicação que evoque à essa guerra que se inicia irracional e que, de fato, não pode produzir nada senão mais irracionalidade: ódio, intolerância, destruição. 

Mas, talvez, o mais assombroso disso tudo seja como, apesar de descarado, esta possa ser uma armadilha de distração ou então simplesmente a verdade nua e crua, tão honesta e simples que sequer conseguimos captar como realidade.

*Historiadora da imagem, da arte e da cultura, pesquisadora e curadora independente. Graduada em História pela Universidade Estadual de Campinas (1997), Mestrado em História da Arte e da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (2000) e Doutorado em História Social pela Universidade Estadual de Campinas (2005). Possuo Pós-doutorado pelo Departamento de Letras Modernas da FFLCH-USP. Docente no Centro Universitário Assunção (Unifai), Universidade São Judas Tadeu e Museu de Arte Sacra de São Paulo

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.

Lidia Zuin