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O futuro de Blade Runner já chegou, só não está bem absorvido

Lidia Zuin

11/11/2019 17h08

Lançado em 1982, o longa "Blade Runner", dirigido por Ridley Scott, foi criado a partir do romance "Androides sonham com ovelhas elétricas?" de Philip K. Dick, mas não é necessariamente uma adaptação. No livro, os principais personagens, chamados replicantes, são algo como robôs ou máquinas orgânicas, enquanto no filme encontramos uma ambiguidade na definição dessa criatura que só na continuação "Blade Runner 2049", de Denis Villeneuve, temos a certeza de que se trata de humanos geneticamente modificados para ter capacidades amplificadas ou reduzidas, como é o caso de sua força e adaptabilidade a ambientes inóspitos (outros planetas) e um maior controle ou ausência de sentimentos e emoções mais fortes. O filme mais recente, aliás, trata de um replicante que não passa mais no teste Baseline por estar perdendo o controle sobre suas emoções e ações, isto é, tornou-se mais "irracional".

Mais do que tratar da figura do replicante, também o longa original trouxe ambientação e atmosfera que se tornaram referência, multiplicada nas obras seguintes, traçando portanto um marco dentro do subgênero cyberpunk da ficção científica. Mas sendo Philip K. Dick um autor por vezes considerado proto-cyberpunk, no sentido de que abordava temas típicos do cyberpunk antes mesmo de o gênero ser "fundado", nos anos 1980, retratou em suas obras de ficção cenários futuros não tão distantes de seu contexto histórico, que era o dos anos 1960 e 1970. "Blade Runner", no entanto, situou melhor a história geográfica e temporalmente, ao abrir a obra com a informação de que a narrativa se passava em Los Angeles, em novembro de 2019.

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Por conta disso, fãs da obra e de ficção científica batizaram o mês de novembro deste ano como o "mês Blade Runner", uma homenagem que também traz à tona que o futuro dos anos 1980 já chegou e, em nosso presente, podemos encontrar concordâncias e discordâncias sobre esse momento que Dick e Scott imaginaram décadas atrás.

Uma questão interessante, levantada por Dick e também reforçada por Villeneuve, por motivos óbvios, é o tema da nostalgia. Ele, em si, não é algo inovador quando tratamos de cenários futuros, afinal, o passado pode servir de inspiração para a construção de futuros e a nostalgia, portanto, acaba sendo um apêndice dessa decisão criativa. Mas, curiosamente, o que vivenciamos hoje é o que o conceito da "hauntology" quer dizer.

Em 1993, o filósofo Jacques Derrida publicou o livro "Spectres of Marx", no qual ele cunha o termo "hauntology" como um conceito que diz respeito à disjunção entre a temporalidade e a ontologia, isto é, a percepção do ser e do existir no mundo, no qual a noção de presença é substituída por uma incógnita que pode ser vista na figura do fantasma, uma entidade que não está nem presente nem ausente, nem viva ou morta. Essa ideia foi utilizada por Derrida como uma forma de entender a construção de uma identidade ou de uma história a partir de uma perspectiva linguística, mas mais tarde ganhou nova camada reflexiva quando Mark Fisher e Simon Reynolds passaram a usar esse termo para descrever a atual disjunção temporal, em que sentimos "nostalgia por futuros perdidos".

Em meio a revivals, prequels e remakes, também deparamos com adaptações de livros e obras que, no próprio enredo, fazem essa apologia ao passado ou ao que o passado entendia como futuro. O vídeo "Hauntology, Lost Futures and 80s Nostalgia" do canal Cuck Philosophy, por exemplo, consegue resumir bem essa noção, ao mencionar obras como "Jogador n°1", "Guardiões da Galáxia" e ainda "Stranger Things" como exemplos de narrativas que prestam homenagem ao passado ao mesmo tempo em que tentam resgatá-lo como uma sensação de presença que, no entanto, não se encaixa em nenhum dos campos — daí sua ambiguidade e equivalência fantasmagórica.

"Blade Runner 2049", portanto, é uma clara evidência do momento atual, que mistura essa disjunção temporal com uma ainda mais profunda dissolução de certezas iniciada pela chamada pós-modernidade. Recorrer ao passado é uma forma de encontrar base para o presente através do conhecido, mas é também uma forma de silêncio e inanição criativa, porque já não conseguimos mais pensar à frente e de forma realmente original, já que estamos tão agarrados a esse futuro que não aconteceu. Ou, pelo menos, não totalmente.

Em reportagem publicada na BBC, foram elencadas sete previsões feitas por Blade Runner. Dentre aquelas que se concretizaram está o hábito de fazer videochamadas, residências inteligentes e detectores de mentira baseados em íris – apesar de o polígrafo ter caído em credibilidade, uma nova empresa americana chamada Converus oferece uma forma de monitorar a íris das pessoas e assim detectar mentiras. Por outro lado, a Los Angeles de Ridley Scott não está próxima do que vemos hoje: apesar de a cidade continuar crescendo cada vez mais, o estado da Califórnia se tornou um dos líderes americanos no processo de redução de emissão de carbono. Blade Runner também não endereça o nosso momento atual de uma cultura de redes sociais e Instagram – na realidade, Deckard ainda usa polaroides como material para sua investigação e esse também não foi um tema para o longa de Villeneuve, o qual, como já dissemos, tem uma função muito mais nostálgica do que necessariamente agregar possibilidades tecnológicas futuras.

Também não temos carros voadores atravessando os céus das cidades, mas isso está nos planos de várias empresas, como por exemplo a Uber e a brasileira Embraer. Já existe o serviço de táxi aéreo inclusive oferecido pela Uber, porém este só está disponível em algumas localidades. Por outro lado, também não temos exemplos de robôs (como os replicantes são tidos no livro) inteligentes ao ponto de superar ou confundir um ser humano. É verdade que já temos inteligências artificiais que passaram no teste de Turing, mas quando aliadas a um corpo físico, ainda temos um caminho a ser percorrido pelo conhecido conceito do "uncanny valley". Exemplos atuais como a robô Sophia ou mesmo os androides e geminoides de Hiroshi Ishiguro ainda não são completamente idênticos ao ser humano tanto na composição de corpo quanto em seus movimentos. No entanto, já temos bebês de proveta há anos e, em 2018, também fomos surpreendidos pelo nascimento das gêmeas chinesas que tiveram seu DNA alterado para serem imunes ao HIV.

Do ponto de vista estético, desde o ano passado já havia o meme de que 2019 seria o ano em que deveríamos nos vestir como os personagens de Blade Runner. E, de fato, o figurino do longa inspirou diferentes coleções de designers de moda como Jean Paul Gaultier, Givenchy e Alexander McQueen. De fato, o figurino faz remitência à moda dos filmes noir e a elementos exagerados que já compunham o estilo da década de 1980: roupas estruturadas, ombreiras, cintura demarcada e sobretudos que também faziam parte da indumentária das subculturas punk e pós-punk. E assim como a moda passa por revivals e também se caracteriza pela ideia da hauntology, vemos nos últimos anos uma ressurgência da moda dos anos 80 e 90 com peças em neon e plástico sendo vendidas em cadeias de fast fashion como Zara ou Riachuelo, mas também com marcas nacionais como Humans and Aliens e internacionais como Off-White. De Pabllo Vittar a Billie Eilish, vemos através do estilo athleisure um aspecto futurista de transparências e cores neon, tecidos refletivos, vinil e couro.

Fora isso, podemos não ter replicantes de verdade, mas temos a cantora ciborgue Viktoria Modesta que encarna todo o estilo e elegância futurista da personagem Rachael interpretada por Sean Young. Além disso, Roy Batty nada mais é do que uma versão ainda mais caótica de Billy Idol, artista contemporâneo à obra e que também dedicou parte de seu trabalho à ficção científica como álbum "Cyberpunk".

Do ponto de vista temático, nada mais sintomático do que termos séries como "Black Mirror" dentre uma das mais comentadas nos últimos anos e na qual temas como inteligência artificial e robótica são discutidos em pílulas. O mesmo vale para séries documentais como a Explained da Vox, que já teve episódios disponibilizados no Netflix sobre CRISPR e programação. Núcleos de inteligência artificial são criados ao redor do mundo, de Dubai até o Brasil, já que recentemente fomos noticiados sobre a abertura de um centro na Universidade de São Paulo. Temos chatbots fazendo agendamentos no site do Poupatempo, respondemos a mensagens gravadas e com reconhecimento vocal quando ligamos para o call center, usamos filtros de realidade aumentada para fazer nossos stories no Instagram e sobrepomos Pokémons nas nossas cidades com jogos que misturam virtual com o físico.

No Brasil, contamos ainda com um recente lançamento do rapper paulista Yannick Hara em seu canções como "Blade Runner", "A ideal mão de obra escrava", "Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?", "Voight Kampff" e "Lágrimas na Chuva", todas disponíveis no Spotify, sendo que duas delas ainda se tornaram clipes nos quais o rapper reflete sobre o impacto das obras de Dick, Scott e Villeneuve sobre o nosso presente e, em especial, no contexto brasileiro. Misturando hip hop com rock e eletrônica, o cantor ainda traz elementos de trilhas sonoras de Vangelis, Hans Zimmer e Benjamim Walfish.

Assim, como visto no tweet de Thomas Fuchs, talvez não tenhamos uma ambientação e uma direção cinematográfica que nos ajude a entender nosso contexto atual a partir dos olhos de Blade Runner, mas a verdade é que a realidade atual se concretizou a partir da profecia do longa de Scott não tanto em seus tons azulados e neons espalhados pela rua, mas nas nuances que nós, vivendo no presente contínuo, nem sempre conseguimos enxergar – a distância temporal, já reforçariam os historiadores, torna mais fácil a leitura de um momento. Então, de fato, talvez não tenhamos uma Tyrell Corporation, mas temos Google, Amazon, Facebook, Tesla, SpaceX, Tencent, Apple e Microsoft. Temos debates em que Jack Ma diz não acreditar que a inteligência artificial supere o humano e então ser rebatido por Elon Musk que afirma que isso não aconteceu "ainda".

Vivemos, de fato, em tempos tecnológicos, caóticos e confusos com líderes políticos e industriais fazendo e dizendo coisas que a própria ficção não seria capaz de sustentar, mas que a realidade mostra ser possível e ainda mais surreal do que a especulação. Mas não vivemos necessariamente em um recorte do mundo como figurado em Blade Runner e, na nossa nostalgia dos futuros imaginados no passado, não conseguimos ver que, de fato, chegamos à Los Angeles de 2019 imaginada no longa de Scott, só talvez não estejamos nos vestindo como os replicantes e voando em carros pelas metrópoles – até porque, no fim das contas, nem precisa mais sair de casa, basta fazer uma videoconferência ou chamar o Rappi.

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.

Lidia Zuin