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Lidia Zuin

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Pensando o presente tecnológico a partir da música industrial

Lidia Zuin

05/11/2019 12h49

O século 20 foi marcado por uma virada extrema na maneira como nós, humanos, nos relacionamos com a tecnologia. Da Primeira Revolução Industrial até o desenvolvimento dos computadores e da internet, passamos por cem anos marcados por revoluções tecnológicas que culminaram na televisão a cores e na bomba atômica, nas vanguardas modernistas e no pós-modernismo. Vimos Marinetti falar de velocidade e do homem-máquina, bem como também vimos DuChamp levar um mictório ao museu e Jimmy Hendrix queimar uma guitarra no palco – um instrumento só criado nos anos 1930. Vimos e ouvimos Kraftwerk falar sobre radioatividade após Chernobyl e também o surgimento da Tropicália no Brasil. Mas em meio a todas essas manifestações populares, também tivemos o surgimento de um novo tipo de música que traduzia o cenário industrial, caótico, entre-guerras e altamente tecnológico: a chamada música industrial.

O termo não poderia fazer mais jus à proposta desses novos artistas que pipocavam pela Europa em países como Alemanha e Reino Unido, a começar por exemplos como a banda inglesa Throbbing Gristle que cunhou o gênero musical com a fundação da gravadora Industrial Records e a ela deu o slogan "Industrial music for industrial people" (música industrial para pessoas industriais). Tudo isso aconteceu nos anos 1970, mesma época em que o punk também crescia na Inglaterra, mas na Industrial Records vimos nascer bandas como Cabaret Voltaire, Clock DVA, The Leather Nun, Monte Cazazza e S.P.K.

Para pesquisadores como John Salvage, a música industrial tem como suas principais características a autonomia organizacional, o acesso à informação, o uso de sintetizadores e a antimúsica, bem como elementos extra-musicais e táticas de choque. Isto é, artistas da música industrial eram independentes e atuavam sem recorrer às grandes gravadoras para poder entrar no mercado e conquistar seu espaço. Como consta no documento de fundação da Industrial Records, o quarteto Throbbing Gristle quis "investigar o que poderia ser feito a partir da mutação e colagem de sons, apresentar à cultura popular barulhos complexos e sem função de entretenimento, convencer e converter. Nós quisemos reinvestir no rock com conteúdo, motivação e risco. Nossas gravadoras eram a documentação das atitudes, experiências e observações feitas por nós e outros determinados outsiders. A moda era um inimigo, o estilo irrelevante."

Mas como um gênero musical que leva o título de industrial seria contra a própria lógica industrial que se instaurava no mundo a partir dos anos 1960 e que inspirou outros artistas e movimentos como a Pop Art e Andy Warhol? A verdade é que o próprio termo industrial escolhido ali era uma ironia e uma crítica ao momento de busca por uma suposta autenticidade durante os anos 70, no entanto, a palavra se tornou tão popular nos anos 1980 que muitos artistas começaram a se autoproclamar industrial apesar de não necessariamente se encaixarem na proposta original. A partir disso, surgiam outros desdobramentos do industrial como o industrial metal que, no entanto, já dissolveram muitas das questões mais chocantes e marcantes dos primeiros artistas.

Por outro lado, Michael Mahan escreveu no artigo "Welcome to the Machine", de 1994, que a música industrial era, na realidade, "um reflexo artístico da desumanização de nosso povo e a inexorável poluição de nosso planeta através do nosso Estado sócio-economicamente baseado em indústrias." Também o pesquisador italiano Massimo Canevacci em 2008 indicou que bandas como a Throbbing Gristle são uma manifestação artística e reflexiva sobre as mudanças na cidade moderna, onde o tradicionalismo das catedrais e praças europeias é dispensado pela construção de um novo cenário caracterizado pelas fábricas. Em suas palavras:

É aqui que entram em cena os Throbbing Gristle: eles nascem de uma divisão do movimento punk e dirigem as suas atenções performativas justamente ao interior destas áreas esquecidas. O abandono, o resíduo, as coisas sem utilidade, tudo aquilo que fica de fora da circulação do valor atraiu diversas pessoas, especialmente artistas, que recolhem e mudam de sentido esses objetos abandonados para transformá-los em algo diferente. Os Throbbing Gristle fazem uma operação muito mais complexa: são eles os verdadeiros precursores do pós-industrial, os que o entenderam e rapidamente o alternaram tanto teórica quanto praticamente. Eles foram os primeiros a perceber que a fábrica morreu. E que esta morte feliz é acompanhada da morte do trabalho industrial oscilante entre alienações e identificações, pela qual pode nascer alguma coisa totalmente diferente.

Não por acaso Canevacci fala sobre fábricas abandonadas e edifícios destruídos. Uma outra banda bastante icônica no movimento é a alemã Einstürzende Neubauten, que traz em seu próprio nome a ideia de "prédios novos em colapso". Tratava-se de uma referência direta aos prédios construídos na Alemanha pós 1945 e que ficaram conhecidos como "Neubauten" em contraponto aos "Altbauten", edifícios velhos e que foram construídos anteriormente ao conflito – isto é, mesmo as construções reforçadas e que traziam um novo momento histórico para um país destruído pela guerra também estavam em colapso, ainda que por outros motivos.

Em 1985, Neubauten gravou o álbum "Halber Mensch", que inspirou o filme homônimo dirigido por Sogo Ishii. Uma das obras mais marcantes da banda, o álbum traz em seu próprio nome a ideia deu um "meio humano" ou, em outras palavras, um subumano – tema também explorado pela Throbbing Gristle e outras bandas que mantinham como pauta a agenda ideológica da Segunda Guerra. Com uma hora de duração, o filme registra a passagem da banda pelo Japão, quando fizeram um concerto nas ruínas de uma fábrica abandonada – a qual, inclusive, estava com data para ser demolida. Entre pedaços de concreto e televisores sintonizados com o logo da banda (um símbolo humano com origem numa pintura rupestre feita pelos toltecas), o quinteto é apresentado ao som do vocal rasgado de Blixa Bargeld e sua guitarra, junto aos outros membros da formação da época: Mark Chung (baixo e vocal), Alexander Hacke (guitarra e vocal), N.U. Unruh (percussão e vocal) e F.M. Einheit (percussão e vocal).

No entanto, quando tratamos de percussão na música industrial e, em específico no caso da Neubauten, não falamos de instrumentos de percussão tradicionais, mas sim objetos do cotidiano, sucatas, que são usadas para dar som e ritmo às canções experimentais. Logo no início de "Halber Mensch", avistamos os percussionistas usando baquetas improvisadas contra um carrinho de supermercado e outros lixos industriais. Também assistimos a Unruh ligando uma serra elétrica para cortar um pedaço de madeira e este mesmo som se torna uma nova camada ao canto de Bargeld, uma sequência de gritos com a palavra "Sehnsucht", saudade em alemão. Ao longo do vídeo, somos apresentados a novos objetos, como tubulações e parafusos, máquinas industriais, furadeiras, canos e cilindros que ganham protagonismo na cena e se tornam elemento musical na performance da banda. Sobre isso, Canevacci também descreveu:

A fábrica vai sendo alterada e jogada. Este é o princípio de base: alterada, no sentido em que, desses muros decrépitos e quase demolidos, em decomposição ácida e suja, pode nascer um tipo de fluxo sonoro que transforma em instrumento musical aqueles mesmos instrumentos de trabalho, agora esquecidos como os lugares. Uma nova música começa a difundir-se entre os espaços da fábrica morta: a industrial. Neste tipo de sonoridade, que os futuristas já haviam experimentado em modalidade inteiramente diferente, o rumor, além do silêncio, é parte constitutiva da música. As estruturas tonais e também dodecafônicas vêm dissolvidas exatamente como se dissolveu a fábrica e o trabalho que incluía. Rangidos dilacerados e distorções de timbre exprimem as dissonâncias próprias de uma música e de uma sociedade que não podem mais se conciliar em uma harmonia tonal ou em uma síntese dialética.

Curiosamente, no entanto, ainda antes de a Einstürzende Neubauten se formar como banda ou ainda de o gênero da música industrial se firmar na Europa, no Brasil, tínhamos exemplos de artistas que já trabalhavam com música experimental. Em 2003, a Petrobrás junto à TV PUC lançou o documentário "Alquimistas do Som" sobre a música experimental brasileira, um gênero que passou despercebido diante do brilho cultural da vertente tropicalista, mas que já possuía uma sofisticação e uma conexão com a cena de outros países. No documentário, depoimentos de artistas como Tom Zé, Egberto Gismonti, Carlos Rennó e Arrigo Barnabé, além do maestro Júlio Medaglia, Lenine e Arnaldo Antunes são utilizados como uma forma de contar a história desse passado desconhecido.

Logo no início, Tom Zé aparece comentando sobre a performance "Música e Músicas", de 1978, na qual a banda utiliza uma espécie de sampleamento de gravações de rádio para compôr uma canção múltipla que, aos poucos, vai se complementando com a presença de enceradeiras, serrotes, rádios a pilha e outras ferramentas do cotidiano que se misturam a violões e vocais repetitivos ou que cantam jingles de publicidade. Música dadaísta, música ferramental, música da fábrica, industrial. Essa performance chama a atenção justamente por se assemelhar muito ao filme "Halber Mensch" da Neubauten, porém o curta só seria gravado oito anos depois da performance de Tom Zé.

É até mesmo possível de se fazer uma comparação entre o curta dos alemães e o registro da performance dos brasileiros. Enquanto um usa uma enceradeira, outro usa uma lixa; quando um usa serrotes contra uma superfície metálica, o outro usa um bastão de metal contra um carrinho de supermercado; quando um mistura instrumentos musicais com instrumentos de solda, o outro usa o martelo contra o metal e substitui assim as baquetas e o tambor. Mas apesar dessas semelhanças mais objetivas, é claro que os contextos são diferentes entre a Neubauten e Tom Zé. Contudo, não é possível de se ignorar a maneira como ambas as cenas europeias e brasileiras estavam se utilizando de ferramentas manuais para produzir música que criticava o cenário industrial e a mídia utilizando-se de uma colagem dadaísta (daí também o nome de uma das primeiras bandas de industrial ser Cabaret Voltaire, um clube noturno fundado por vários artistas dadaístas como Hugo Ball, Tristan Tzara e Marcel Janco).

Comparação entre a performance da banda de Tom Zé e Einstürzende Neubauten em Halber Mensch.

De lá pra cá, passamos três revoluções industriais. As duas primeiras trouxeram a tecnologia do vapor e da eletricidade, sendo a terceira responsável pelas tecnologias digitais e, hoje, estamos figurando a iminência de uma quarta revolução industrial a partir da chegada e desenvolvimento das chamadas tecnologias exponenciais: blockchain, tecnologias imersivas (realidade virtual, mista e aumentada), inteligência artificial, internet das coisas, big data, nanotecnologia, biotecnologia e robótica. Já é conhecido o caso de a inteligência artificial ser usada a produção de música, de filmes e roteiros, de quadros e demais obras de arte. Independentemente se podemos classificar essas produções como arte ou não, o que quero chamar a atenção aqui é que, em sua maioria, os trabalhos feitos por máquinas são ou um reconhecimento de padrões ou então uma tentativa de emular a lógica da criação de obras que seguem a receita da cultura de massa – isto é, cultura pop, filmes blockbuster etc.

Alguns desenvolvedores como Ash Koosher estão buscando uma outra via de se usar a inteligência artificial para se combinar e misturar estilos musicais e então criar algo que pode não ser comercialmente viável para os artistas investirem, mas que pode ser criativamente interessante para os fãs ou mesmo para a música como um gênero artístico. De qualquer modo, temos aí um conflito entre a necessidade de se ligar a prática artística à geração de capital e, ao mesmo tempo, a necessidade de o artista ser remunerado pelo seu trabalho como toda e qualquer profissão. É um dilema que não é novo, mas que perpassa toda a história da humanidade, sendo que outrora artistas eram financiados pelos governantes, pelo clero ou por mecenas, enquanto hoje esse tipo de fonte de renda se divide entre diferentes formatos, desde o financiamento na academia até plataformas de financiamento coletivo ou patrocínios e a junção com o design e a publicidade, formatos como os quadrinhos, videogames e assim por diante. Mas sem querer prolongar essa conversa, o ponto aqui é se debruçar nos artistas que estão usando essas novas tecnologias como forma de criticar e refletir sobre o nosso contexto industrial.

Dentre os nomes mais populares estão exemplos como a banda 3TEETH que empresta muito da estética já assimilada pelo mercado com a Rammstein e uma sonoridade que também revisita a banda alemã ou ainda os americanos do Nine Inch Nails e Marilyn Manson. Apesar de alguns vídeos terem uma carga política e que remete ao contexto norte-americano, ainda assim há a confusão entre a crítica e a apropriação fetichista da estética fascista, da violência e do sadomasoquismo, um tema que explorei ao longo do meu trabalho de conclusão de curso na graduação. Anteriormente, bandas como Skinny Puppy traziam também essa estética de choque, mas com propósitos mais esclarecidos como era o caso dos direitos animais. Hoje, a intersecção entre o industrial e o hip hop parecem estar mais dispostos a assumir uma postura política, como é o caso da banda clipping. e seu álbum "Splendor & Misery" de 2016.

Considerado um dos melhores álbuns de industrial pela Pitchfork, a obra segue a linha de outros grupos como Public Enemy e Bomb Squad que não necessariamente se reservavam à sonoridade original do hip hop, mas também se utilizavam de ruídos que mais os aproximariam do noise ou do próprio industrial. No caso de "Splendor & Misery", há não apenas uma série de canções barulhentas como também umaabordagem afrofuturista no qual o trio mistura sons experimentais com coral gospel para expressar algo que está faltando no industrial contemporâneo: uma crítica ao sistema que aflige nossa era, das pessoas ao meio ambiente, da saúde mental à saúde física de todos os seres vivos, e, nesse sentido, a questão racial também não como ser eliminada da equação.

De forma semelhante, a Death Grips segue uma carreira em que rap, industrial, noise e rock se misturam com samples dos Beatles, gritos de Serena Williams em uma partida de tênis e outros elementos que parecem aleatórios à primeira vista, mas que se encaixam em álbuns como "The Money Store", em que banda cria essa controversa identidade do industrial que é apresentar uma sonoridade e visualidade agressivas ao mesmo tempo em que critica a violência e o capitalismo. Com fãs notáveis como Björk (com quem já trabalharam junto) e o ator Robert Pattinson, a banda se diz não ser política ou politizada, mas suas letras fazem referências a questões como pobreza e desigualdade, além de terem liberado suas músicas de graça em torrent há alguns anos e, com isso, ter deixado a gravadora furiosa. De qualquer modo, em um artigo publicado na Noisey, o editor Drew Millard cita alguns exemplos de bandas e álbuns que seguem a mesma linha de estilo e de posicionamento do duo americano: Run the JewelsB L A C K I EAlley BoyTroubleSaul Williams – The Inevitable Rise and Liberation of Niggy Tardust!Kanye West – YeezusPublic EnemyN.W.A.T.I.'s Trap MuzikYoung Jeezy – Let's Get It (Thug Motivation 101)Waka Flocka – FlockaveliClippingOG MacoThe Devildead prez, projetos solos de Das Racist/Heemsthis Joell Ortiz son e Danny Brown.

Mais do que enumerar exemplos aqui, fica a provocação sobre quais artistas da música industrial contemporânea estão, de fato, se utilizando das tecnologias mais recentes, as chamadas exponenciais, como forma de criticar o momento histórico que vivemos. Talvez as ferramentas de composição ainda sejam "antigas", mas as sonoridades possam parecer novas. Talvez as ferramentas sejam novas, mas a sonoridade seja antiga. De qualquer modo, a música industrial vai além da combinação das guitarras com sampleamento para ser, em primeiro lugar, um olhar sobre o mundo contemporâneo permeado por tecnologia e por ideologias não compatíveis com o mundo e seus habitantes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.

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