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Lidia Zuin

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Witch House, ou de como a música eletrônica virou ocultista em 2010

Lidia Zuin

23/10/2019 15h19

Para quem assiduamente acompanhou o Tumblr nos últimos anos, é provável que também tenha deparado com o nascimento de diferentes subculturas de internet que foram capazes de chegar ao mainstream tempos depois. Recentemente, TAB publicou uma reportagem do editor-chefe Rodrigo Bertolotto sobre o que ele chamou de "microculturas jovens" que não deixam de passar pela internet ou que, de fato, nasceram nas redes. A matéria cita microculturas como o vaporwave e o seapunk, ambos já absorvidos pela cultura pop com trabalhos de Rihanna e Azealia Banks. Também fala da transformação do vaporwave, cuja estética anticapitalista e irônica foi apropriada pelos novos conservadores e simpatizantes da extrema-direita.

Um gênero que, no entanto, não saiu muito dos cantos obscuros da internet e de algumas baladas de nicho em São Paulo e na Rússia foi o witch house. A verdade é que o estilo, expresso na moda (e mesmo na moda fast fashion) começou a absorver elementos visuais que caracterizavam o ocultismo e a magia dentro de um visual mais moderno — por vezes, até hipster — por lojas como Asos, Romwe e Killstar, todas elas marcas que patrocinavam blogueiras do Lookbook e que também se tornaram queridas entre as fãs do look.

Mas essa é só a camada fashion da questão. O witch house, na realidade, nasceu como gênero artístico ou como uma tag mais irônica quando Travis Egedy, do Pictureplane, brincou que o tipo de música house (subgênero da música eletrônica) que eles estavam fazendo era witch house, ou house com referências ao ocultismo. A história chegou ao site Pitchfork em 2010 e, então, outros artistas começaram a se identificar com o rótulo e, em sites como MySpace e grupos do last.fm, novas comunidades adotavam o termo e o estilo. E esse foi o motivo pelo qual 2010 se tornou "o ano do witch house", inspirando outras pessoas a abordarem o gênero musical em seus blogs, tornando o witch house um "tipo de meme".

O witch house, então, ficou conhecido musicalmente por sua novidade sonora, algo como um som "lento e gótico de baixa qualidade, um certo de tipo de versão shoegaze quebrada e corrompida".  Apesar disso, como indicado por Egedy, não existem características específicas que definam o que é o witch house, seja musicalmente ou em seu estilo e estética: "Não há uma lista de regras. (…) Limitar a si mesmo ou se rotular (…) [significa] que você realmente não está entendendo". Contudo, é possível notar semelhanças nas sonoridades e temáticas de bandas como a própria Pictureplane, Modern Witch e Salem, bem como a estratégia adotada por outros artistas witch house que foram surgindo.

Ao resenhar a mixtape "I BURIED MY HEART INNA WOUNDED KNEE" lançada em 2010 pela Salem, Andrew Necci, do site RVA Magazine, abriu o texto com uma citação do cartunista Warren Ellis:  "Na internet, não há mais nenhuma verdadeira subcultura. Se você quiser criar uma subcultura por si mesmo, a primeira coisa que deve fazer é criar uma rede lexical obscura, termos ou palavras-chave que os sistemas de busca não reconheçam." Dito e feito. As bandas então começaram a utilizar símbolos (ou "grifos tipográficos", como prefere Necci) que substituem letras ao exemplo do alfabeto "Leet" usado especificamente na internet, em espaços como jogos online e círculos de hackers.

Do mesmo modo que o Leet, números e caracteres em ASCII substituem letras, no witch house, com o exemplo de bandas como a Ritualz, também conhecida como †‡†, ou ainda Mascara, também conhecida como M△S▴C△RA, ou ainda a banda M‡яc△ll△ . O motivo para isso continua dúbio até hoje: seria uma estratégia para o gênero se manter desconhecido, ao ponto de ser difícil de ser indexado nos mecanismos de busca, ou é realmente uma questão de estilo? Difícil dizer. Há ainda um aspecto político e identitário nesse gênero que, por vezes, pode parecer superficial e excessivamente estético. Embora alguns teóricos, como Dick Hebdige, já tenham afirmado que, depois do punk, nenhuma outra subcultura foi política, mas sim puramente estética.


Mater Suspiria Vision é uma das poucas bandas de witch house que continuam lançando novos materiais e que se mantêm fiéis ao gênero

Outras bandas, como a Mater Suspiria Vision, chegaram a substituir o nome por símbolos  ℑ⊇≥◊≤⊆ℜ. Segundo a explicação em sua página de Facebook, o  símbolo "ℑ" aqui significa ficção, enquanto "ℜ" está para o real e os elementos que os separam simbolizam um espelho a refletir os dois mundos, assim como no universo de "Alice no país das maravilhas" (1865), de Lewis Carroll: "Não acredite em tudo que vê – as corujas não são o que parecem", descrevem os músicos, ao citarem uma das falas do personagem The Giant no seriado "Twin Peaks" (1990-1991) de David Lynch.

A série, aiás, é uma referência popular no witch house. Inspirou duas coletâneas em tributo. O primeiro volume de "A Witch House and Okkvlt Guide to Twin Peaks" foi lançado em 2011 pela Phantasma Disques, selo criado por Cosmotropia de Xam, líder da banda Mater Suspiria Vision. Apesar de o pseudônimo sugerir que Cosmotropia se trata de uma mulher, diferentes fontes, como a resenha de Tanner Tafelski (2016) sobre seu filme "Delirium", indicam que se trata de um homem que vive na Alemanha, trabalhando junto com a vocalista Aura. Independentemente disso, o mais relevante em Cosmotropia de Xam é sua multidisciplinaridade como diretor, produtor musical, compositor, criador de um selo, designer e, acima de tudo, apoiador da cena witch house.

É a partir de referências do cinema cult de terror que Cosmotropia monta as imagens visuais e sonoras de Mater Suspiria Vision, sendo o próprio nome da banda uma referência ao primeiro filme da trilogia "The Three Mothers" do diretor italiano Dario Argento. "Suspiria" (1977), que foi recentemente refilmado e contou com a participação de Tilda Swinton, trata da história de uma série de assassinatos e mistérios que envolvem uma das principais academias de dança na Alemanha. Com uma fotografia que segue sendo referência até hoje, a obra é centrada em um universo feminino, com protagonistas mulheres que seguem sendo o mote das sequências "Inferno" (1980) e "The Mother of Tears" (2007), nas quais são apresentadas as três mães, respectivamente: Mater Suspiriorum, Mater Tenebrarum e Mater Lachrymarum, todas elas personagens que datam do século XI, quando três irmãs se iniciaram na bruxaria.

Isto é, a figura arquetípica da bruxa abordada nas narrativas de terror encontram no witch house uma nova significação adaptada à contemporaneidade, trazendo a referência como uma nova leitura sobre o feminismo, assim como também sugerido pela especialista em filosofia política Armelle Le Brás-Chopard em "As Putas do Diabo" (2007), ou ainda em outras obras de ficção à época do auge do pensamento feminista no século passado. Em 1973, a animação japonesa "Belladonna of Sadness" trouxe uma narrativa de emancipação feminina a partir da bruxaria, do mesmo modo que obras mais recentes, como o longa "The Witch" (2016) ou "The Love Witch" (2016). Nesse mesmo ano, também a revista britânica Sabat Magazine iniciou seu trabalho como publicação independente a partir do pressuposto de um periódico focado em "bruxaria, feminismo, arquétipos antigos e arte instantânea", reunindo artigos, depoimentos e fotografias de bruxas e seus altares compartilhados em redes sociais, como o Instagram. Esse tema, aliás, também já foi pauta para uma reportagem especial do TAB.

Outro exemplo dessa temática no witch house é a banda americana M‡яc△ll△, cuja inspiração também vem de outra narrativa de horror, desta vez proveniente da literatura. Vinte e seis anos antes da publicação do clássico "Dracula" (1897), Joseph Sheridan Le Fanu já havia lançado o romance vampírico "Carmilla" (1871) que, segundo diferentes pesquisadores, serviu de grande influência para a obra de Bram Stoker. O livro, narrado em primeira pessoa, conta a história de Laura, uma jovem inglesa que se vê vítima de uma vampira que é trazida para dentro de sua casa. Usando o codinome Carmilla, a antagonista é mais tarde revelada como sendo Mircalla, a Condessa Karnstein (Carmilla é anagrama de seu nome verdadeiro).

"Escrita durante a era vitoriana, a obra ficou conhecida por narrar um relacionamento homossexual entre mulheres. Vampiros, portanto, passaram a ser figuras que traziam novas impressões sobre sexualidade e regras morais para aquela época.
A premissa desses romances era que mesmo os de coração puro não eram capazes de resistir à sedução sobrenatural. A ideia era extremamente atrativa para a alta classe vitoriana, especialmente mulheres, cujos desejos sempre foram rigidamente restritos.
No entanto, impotência não significa rendição ou perdão, já que esses poderes são entendidos como malignos e ligados a forças demoníacas. Em quase toda história de vampiros, as mulheres são caçadas até a morte, a menos que homens de suas vidas venham para seu resgate. Desse modo, o arquétipo do vampiro simultaneamente funcionava como uma saída para os desejos sexuais reprimidos e uma lição moral do perigo em sucumbir a esses desejos" (Zapata, 2016).

Pode-se dizer que, no witch house, bem como nas narrativas de horror, ambas as figuras sobrenaturais da bruxa e da vampira funcionam como metáforas e arquétipos de empoderamento feminino ou mesmo de desconstrução das noções de gênero. Ainda que o witch house tenha surgido primeiro como uma subcultura de internet, este se expandiu para se tornar tema de festas em diferentes países como a Rússia, Inglaterra e Brasil. Depois de a festa MUSCLES CAVERN propor o gênero musical como parte de sua agenda de festas noturnas, de 2013 a 2015, um dos organizadores dessa primeira iniciativa, Marcos Leite Till, criou a festa SAD RAVE para também incluir seus projetos musicais, sendo MERMAID SLUT seu trabalho artístico dentro do gênero witch house.

Com o sucesso desse novo projeto, novas festas surgiram tanto em São Paulo quanto no Rio de Janeiro, todas com nomes que fazem referência aos temas ocultistas e de clássicos do horror que caracterizam boa parte da cena witch house: Tarantula (2016), Black Lodge (2016), BRUXA (2015), DR/\M/\ (2016), Le Freak (2015), Tormenta, entre outras. Apesar do grande número de projetos, sendo todos os exemplos citados inseridos no contexto paulistano, o público local e participante não chegou a ser tão numeroso a ponto de fazer com que todos os projetos se mantivessem financeiramente e com periodicidade. Contudo, um pico se deu no dia 3 de setembro de 2016, quando a SAD RAVE dedicou uma edição especial à banda Crystal Castles, que foi considerada witch house e que também se tornou popular ao fazer parte do headline de diferentes festivais de música ao redor do mundo. Isso também vale para o duo britânico CRIM3S, que além de ter ganhado popularidade na cena, também encontrou intersecção com o mundo da moda: ambas Alice Glass (ex-Crystal Castles) e Sadie Pinn (CRIM3S) são modelos e já desfilaram para designers como Vivienne Westwood e Alexander Wang.

Foi nessa mesma oportunidade que a revista L'Officiel Hommes (edição setembro 2016) fez cobertura do evento para uma reportagem sobre a cena noturna paulistana, incluindo uma nota sobre a SAD RAVE, bem como imagens dos DJs e bandas que frequentemente se apresentam no local. Apesar de a página da SAD RAVE no Facebook contar com mais de 10 mil curtidas, a cena paulistana somava bem menos adesões, o que fazia com que as festas fossem povoadas tanto por admiradores quanto por artistas que também se multiplicam em diferentes projetos. É o caso, por exemplo, de Maur, criador e líder das bandas TERR0RISM, MAVR e Fiendgrief. Além dele, outros DJs e grupos como FKOFF1963, DIE DIE, Dolphinkids e Purple Narcissus também faziam parte dessa efêmera cena brasileira e que, aliás, também condiz com a maneira como as outras bandas se dispunham na internet: qualquer pessoa podia entrar em contato com esses artistas pelo Tumblr ou Soundcloud, por exemplo.

Hoje, o gênero se dissolveu com a ascensão do trap e a chegada de novos subgêneros de internet, mas seu impacto ficou marcado principalmente por conta da ação de uma fanbase que não necessariamente se encontrava em locais físicos para dançar, mas que acompanhava os lançamentos pela internet, os podcasts e programas de rádio online que traziam as novidades. Particularmente, fico muito feliz de ter feito parte dessa história ao ter gravado um vídeo explicativo sobre o subgênero já em 2013, bem como ter participado de duas rádios online (uma brasileira e uma inglesa) com um programa periódico com seleções de canções witch house e que tinha o nome de Hexcast (todos os episódios estão disponíveis aqui). Isso me deu a oportunidade, inclusive, de gravar um álbum de spoken word com a  M‡яc△ll△, uma das minhas bandas preferidas e, mesmo assim, eu nunca soube quem eram, quantos eram, se conversava com uma mulher ou um homem.

Subculturas ou microculturas de internet são isso. Criam-se personas, faz-se arte, não se visa o lucro e a fama, mas sim a formação de comunidades que se interconectam entre gostos, interesses, sonoridades e estéticas afins. Como diria a pensadora contemporânea Andressa Urach, "só quem viveu sabe".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.

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