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Lidia Zuin

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Pesquisadora brasileira vê na China socialista uma inspiração para o futuro

Lidia Zuin

07/10/2019 04h00

Camila Ghattas (Foto: Reprodução)

Em 1º outubro de 1949, Mao Tsé-tung proclamava a fundação da República Popular da China. Na semana passada, com 15 mil soldados, centenas de tanques e aviões de combate, o país comemorou seus 70 anos de revolução. Hoje o país conta com a governança do presidente Xi Jinping, eleito em 2013 e, desde 2018, com direito a mandato vitalício aprovado pelo parlamento chinês. O político foi responsável pela Iniciativa do Cinturão e Rota, um projeto que investiu na infraestrutura de países da Ásia, África e Europa, de modo que a China, portanto, pudesse ganhar mais influência econômica mundial. O sucesso da empreitada fez com que, em 2017, Xi Jinping fosse considerado pela revista britânica The Economist o homem mais poderoso do mundo, embora suas ideias, envelopadas no conceito do "Sonho Chinês", já tenham recebido críticas.

Uma das questões que mais chamaram a atenção no Ocidente foi a questão do sistema chinês de créditos sociais, uma iniciativa que ganhou tração especialmente após o lançamento do episódio "Nosedive" da série "Black Mirror", em 2016. De lá para cá, as comparações com distopias da ficção científica se tornaram unânimes na maneira como esse sistema com previsão de implementação para 2020 foi recebido. No entanto, nem sempre nossa percepção ocidental está realmente de acordo com o que acontece em um país que, por si só, tem como premissa fechar-se em uma espécie de firewall nacional, em que grandes empresas de tecnologia como Google, Facebook, Instagram e Amazon não têm vez.

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Na China, tudo funciona dentro do próprio ecossistema tecnológico com grandes empresas como Baidu, Alibaba, Tencent e JD.com. Os números são todos estratosféricos, se não forem comparados proporcionalmente aos países ocidentais: no Singles Day de 2018, que é uma espécie de Black Friday chinesa, só o Alibaba vendeu sozinho US$ 30,8 bilhões em 24 horas. Fora isso, em um país com 1,2 bilhões de habitantes, 500 milhões de consumidores estão comprando produtos e serviços através de seus celulares, o que significa uma quantidade de pessoas maior do que a população total dos Estados Unidos, Reino Unido e Alemanha somada.

Provocada por essa total discrepância cultural e econômica chinesa, a pesquisadora paulista Camila Ghattas, de 32 anos, resolveu sair da sua zona de conforto após co-fundar a consultoria diip, especializada em futurologia e co-inovação. Com uma mala de mão e seu computador, Camila, que estuda tendências em tecnologia e inovação, embarcou em uma viagem que começou no Canadá, passou pela Califórnia e terminou com sua mudança para a China, onde mora há nove meses. "Me sentia ilhada por uma metanarrativa de futuro que abordava a visão norte-americana e europeia e não tinha acesso ao futuro que está sendo escrito pelos chineses, que em 10 anos provavelmente serão os líderes da economia mundial", ela explica. Sabendo falar apenas "olá" em mandarim, Camila hoje mora em Xangai e estuda a língua para entender melhor a cultura e os costumes locais.

De lá para cá, Camila já conseguiu confirmar uma hipótese que tinha antes mesmo de se mudar: a China é, de fato, um país com uma mentalidade mais alinhada aos princípios dos future studies (estudos do futuro, do qual faz parte a futurologia), seja do ponto de vista metodológico como de pensamento.

"É encantador ver o progresso da China nos últimos 40 anos e como a visão de futuro permite que planejem e executem os planos em suas múltiplas esferas e indústrias. No entanto, esse assunto não permeia os cidadãos com tanta iminência, abrindo um gap grande e uma enorme oportunidade de explorar esses assuntos abertamente com o público, para diferentes níveis hierárquicos nas empresas", comenta a pesquisadora. Significa dizer que, apesar de a premissa dos estudos do futuro fazerem sentido nos caminhos que o país percorreu, trata-se de um ponto de vista que precisa ser mais democratizado entre os cidadãos chineses.

Nesse sentido, Camila trabalha no país, preenchendo essa lacuna sobre o futuro e a população chinesa. Na área de educação, Camila realizou parcerias com algumas organizações e hubs locais, dentre eles a Her Century e a SheUp, ambas voltadas ao empreendedorismo e liderança femininas para ensinar frameworks, metodologias e grandes temas relacionados à futurologia e inovação através de aulas, treinamentos e palestras. Seu objetivo é fazer uma mistura dos aprendizados ocidentais com as perspectivas orientais, mesmo dentro do campo estratégico. Camila também desenvolve projetos de negócios para ajudar empresas a construírem seus futuros, curando conteúdo e inspiração globais para resolver as dúvidas e desafios dos negócios, sendo a China uma das principais inspirações de ecossistema a serem analisados por todo o mundo, inclusive o Brasil.

Camila explica que desde nosso descobrimento, o Brasil sempre esteve tentando replicar modelos macro-econômicos, políticos e legais com base em casos de sucesso de países estrangeiros, em especial os da América do Norte e da Europa. "Assim como a China seguia um modelo que se autocorrigiu 40 anos atrás, que eles chamam de 'socialismo com características chinesas', falta para o Brasil encontrar um sistema autêntico, que dê conta de um país com particularidades culturais, sociais e econômicas distintas do resto do mundo", ela argumenta. "Nossa deficiência não é tecnológica, é política. Parte disso explica o porquê de muitos países, principalmente a China, já estarem usufruindo de diversas tecnologias em seus ecossistemas e nós não. Quando o Brasil entender e conseguir aplicar essa mudança, teremos mais chances de participar de um sistema global com mais competitividade e criar relações multilaterais."

Para a futuróloga, o fato de a China ter saltado de um país onde 50 milhões de pessoas morriam de fome para a segunda maior economia global é algo impressionante. Camila conta que o dono da casa que aluga em Xangai chegou a mencionar que, durante a infância, sua família inteira dividia uma mesma casa e uma bicicleta. "Eram as únicas posses que tinham. Hoje, ele fala com muito orgulho das três casas e três carros que ele e a esposa possuem. Ou seja, a condição de vida melhorou tanto e a segurança física, emocional e financeira tornou-se estável em um nível tão alto em tão pouco tempo que esse embate sobre a falta de liberdade tem outro peso", comenta a pesquisadora, que menciona que o fato de ser estrangeira morando na China não a faz ser tão impactada pelo sistema local, apesar de ainda assim estar sendo regida pelas normas vigentes.

"Percebo que as gerações mais novas e com maior acesso à educação e experiência no exterior, também talvez por não terem vivido essa época, sentem um impacto muito maior, principalmente em relação à internet, que é restrita e controlada no território chinês. O que nos leva ao segundo ponto: é muito difícil sentir falta de algo que nunca tivemos", ela complementa.

Xangai é considerada uma das cidades mais futuristas da China. O local se tornou cenário de diferentes filmes de ficção científica, desde "Code 46" a "Her". (Foto: Francois Hoang/Unsplash)

Afinal, com exceção das pessoas que viajam para fora da China, os cidadãos chineses não têm realmente uma outra referência de forma de governar e, ainda que a tenham, Camila argumenta que não sabe até que ponto eles poderiam reivindicar por isso sem sofrer consequências que ela considera severas. "No geral, seja por uma questão de felicidade natural ou sintética, a grande maioria dos dados de pesquisas apontam que os chineses têm uma visão muito mais positiva em relação ao futuro do que a maioria da média global tem em relação aos seus países", acrescenta. "Criticamos muito o sistema chinês, mas quando olhamos para as conquistas em variadas métricas dos últimos anos, comparadas às do Ocidente, passamos a pensar qual é o sistema de governo e político com melhores KPIs [Key Performance Indicators, ou indicadores-chave de desempenho], o que nos faz repensar nossos próprios métodos."

Camila diz isso levando em conta grandes mudanças. Em apenas cinco anos, a cidade de Shenzhen foi capaz de transformar 100% de sua frota de ônibus em veículos elétricos e, portanto, reduziu não só a emissão de CO2, mas também a poluição sonora das cidades. A perspectiva é que mais 30 cidades cheguem à mesma estatística até 2020, enquanto Nova Iorque prevê a mesma conquista só em 2040.

Outra conquista surpreendente é a maneira como empresas como a Tencent, criadora do aplicativo WeChat, conseguiu integrar 950 milhões de usuários com serviços de troca de mensagens, plataforma de pagamentos, transações monetárias, e-commerce, feed de postagem de fotos e vídeos, bem como programas de fidelização de empresas e outras funções. Camila explica, que apesar de existirem outras plataformas nacionais com serviços parecidos e abordagens diferentes, a centralização da Tencent traz incontáveis vantagens ao oferecer serviços e produtos personalizados que têm como fonte uma grande base de dados capaz de gerar insights.

Ainda assim, Camila assume que a China não abandonou a fama de apropriar-se de tecnologias estrangeiras, reproduzidas e vendidas a preços mais baixos. Mas o plano é que isso seja reduzido ou mesmo extinto até 2025, tornando, então, o país mais inovador e autoral com novos planos de desenvolvimento industrial, dos quais a pesquisadora destaca o Masterplan para Realidades Virtuais e o New Generation Artificial Intelligence Development Plan (plano de desenvolvimento de nova geração de inteligência artificial) em segmentos plurais. É a política do Made in China 2025.

"Essa visão, fora outras milhares que existem, inclusive de smart cities, mobilidade e saúde, nos apontam para uma direção muito interessante de futuro e de quem será a China. Se não entendermos e usarmos isso como inspiração para criar nossas ações no presente, seremos muito pouco competitivos enquanto economia", opina Camila.

Por fim, as principais tecnologias em que Camila sugere que fiquemos de olho são as tecnologias imersivas (realidade virtual, aumentada e mista), robótica, internet das coisas, inteligência artificial, biotecnologia e nanotecnologia, que ela própria explicou em uma apresentação TED Talk. "Essas tecnologias serão aplicadas de forma transversal em diferentes indústrias, sendo que algumas das principais empresas são Alipay, Ant Financial, WeChat Pay, Tencent e JD.com, no ramo de sistemas financeiros e de pagamentos. Já no âmbito de logística e transporte, é importante ficar de olho na CaiNiao, Ele.ma e Meituan, além da Didi Chuxing. Outros nomes como a DJI, Ubtech Robotics, SenseTime, Cambricon, iCarbon X, Ping An vão aparecer àqueles interessados em inteligência artificial."

No entanto, ainda assim assistimos às manifestações de resistência à reintegração de Hong Kong à China, o que significaria a perda de várias liberdades que a colônia britânica possui. Somos assim convidados a assistir um embate entre cidadãos de Hong Kong e o governo central. São pessoas que não se sentem parte da ideia do que é ser chinês e que não se integraram ao sistema nacional, apesar de estarem tão geograficamente próximos. O mesmo vale para Taiwan, que continua resistindo e lutando por sua independência, tendo como principal aliado os Estados Unidos que, por sua vez, travam uma batalha política, econômica e ideológica contra a China. Ainda assim, o país não deixa de crescer anualmente em uma média de 6,9%, o que assusta a potência norte-americana, que pode ser desbancada na próxima década por um país que se autoproclama socialista.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.