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Lidia Zuin

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O futuro pós-gênero da anatomia humana

Lidia Zuin

13/08/2019 07h08

Há um milhão de anos, o humano como hoje conhecemos não existia. Na realidade, não havia nem o Homo sapiens, mas sim outras espécies de humanos como o Homo heidelbergensis, que possuía semelhanças tanto com o Homo erectus quanto com os humanos modernos. Fica até difícil imaginar o que um milhão de anos à frente pode nos trazer em termos de evolução biológica da nossa espécie. Mas, a curto prazo, diferentes cientistas têm dado palpites do que poderiam ser os próximos passos da humanidade, a começar pela questão mais imediata da miscigenação.

Em um estudo realizado em 2002 pelos epidemiologistas Mark Grant e Diane Lauderdale, foi descoberto que apenas 1 em 6 americanos brancos e não-hispânicos possuíam olhos azuis, o que significa uma redução maior do que a metade da população americana com olhos azuis mapeada cem anos antes. Uma das explicações para isso, segundo os pesquisadores, é que a tendência do acasalamento seletivo, isto é, a preferência de membros de um mesmo grupo ancestral em se reproduzirem entre si, diminuiu. "Isso foi consistente com o crescimento da proporção de indivíduos nascidos a partir de 1980, que registravam mais de uma ancestralidade no censo", afirmaram os pesquisadores.

O que vemos, então, é uma diminuição da ocorrência de olhos azuis conforme nos miscigenamos e espalhamos pelo mundo. E fazemos isso cada vez mais e de forma mais distante, como propõe Stephan Stearns, professor de ecologia e biologia evolutiva na Yale: antes da criação da bicicleta, a distância média do local onde uma pessoa nascia e para onde ela se mudava para formar uma família era de 1,6 quilômetro apenas. Com a chegada da bicicleta no século 19, essa distância aumentou para 48km e, com os automóveis, aviões e, no futuro, o Hyperloop, essas distâncias aumentarão e se intensificarão ainda mais.

O que acontece, então, é que características recessivas, como é o caso dos olhos azuis ou mesmo dos cabelos ruivos e loiros, passarão a diminuir como defende o biólogo evolutivo John McDonald, da Universidade de Delaware: "Já que a maioria dos imigrantes americanos são da Ásia, África ou América Latina, qualquer traço que é mais comum em europeus nórdicos em comparação ao resto do mundo será menos comum no futuro próximo dos Estados Unidos, devido à imigração". Mas a isso não se reserva apenas à aparência física: McDonald também acredita que características recessivas como a possibilidade de desenvolver fibrose cística e anemia falciforme também terão sua incidência reduzida devido à miscigenação. Nesse futuro mais próximo, o professor Stearns prevê que todos no mundo serão mais parecidos conosco, brasileiros, justamente por termos em nossa constituição genética tantas etnias diferentes.

Ao longo dos últimos dez mil anos, humanos também desenvolveram tolerância à lactose e, durante os últimos 150 anos, e tiveram um aumento de 10 centímetros na altura. Hoje também vivemos pelo menos 20 anos a mais do que vivíamos há 65 anos, muito frequentemente por conta da ciência e dos avanços tecnológicos. Seguindo essa mesma premissa, faz sentido pensar que, no futuro, novas tecnologias também influenciarão nossa espécie de forma ainda mais radical. Essa é a proposta do transumanismo, por exemplo, que sugere que não seremos mais seres puramente biológicos, mas também compostos de tecnologia – seja ela em forma de nanorrobôs que correrão pela nossa corrente sanguínea ou como implantes que não mais servirão apenas para a correção de deficiências, mas para a amplificação das nossas capacidades.

Desse modo, junto aos desenvolvimentos da robótica, também assistimos ao avanço da biotecnologia através de técnicas como a edição genética ou mesmo da medicina através de procedimentos cirúrgicos que visam a estética. Vemos como uma prática que antes era reparativa agora se torna capaz de moldar nossa aparência, ainda que isso possa nos uniformizar. Por outro lado, subculturas como a body modification se utilizam da mesma premissa com aplicações, demarcações e diferentes outras formas de modificar o corpo: de uma tatuagem ou piercing até o implante de chifres e a remoção dos mamilos. Mas assim como essas práticas não são novidade (na realidade, as primeiras tatuagens, por exemplo, datam de 3.370 a 3.100 a.C.), também vemos como a subcultura da body modification acabou se desenvolvendo com a chegada do biohacking.

Rob Spencce

Em 1984, quando Donna Haraway publicou seu famoso "Manifesto Ciborgue", ficou clara uma nova visão sobre o ciborgue não apenas como um humano literalmente composto por partes tecnológicas, mas sim como nós nos modificamos como espécie a partir de práticas sutis que vão desde a nossa alimentação até procedimentos cirúrgicos hoje considerados comuns (próteses de silicone, por exemplo). Nesse sentido, Gray, Mentor e Figueroa-Sarriera chegaram a criar até mesmo uma taxonomia ciborguiana que classifica possíveis intervenções do corpo humano a partir da lógica do ciborgue e da antropologia do ciborgue. A saber:

  1. Modificações restauradoras: permitem restaurar funções e substituir órgãos e membros perdidos
  2. Normalizadoras: retornam as criaturas a uma indiferente normalidade
  3. Reconfiguradoras: criam criaturas pós-humanas que são iguais aos seres humanos e, ao mesmo tempo, diferentes deles
  4. Melhoradoras: criam criaturas melhoradas, relativamente ao ser humano.

Nas palavras de Tomaz Tadeu em seu artigo "Nós, ciborgues. O corpo elétrico e a dissolução do humano", é na combinação dessas intervenções que encontramos o ciborgue:

"Implantes, transplantes, enxertos, próteses. Seres portadores de órgãos 'artificiais'. Seres geneticamente modificados. Anabolizantes, vacinas, psicofármacos. Estados 'artificialmente' induzidos. Sentidos farmacologicamente intensificados: a percepção, a imaginação, o tesão. Superatletas. Supermodelos. Superguerreiros. Clones. Seres 'artificiais' que superam, localizada e parcialmente (por enquanto), as limitadas qualidades e as evidentes fragilidades dos humanos. Máquinas de visão melhorada, de reações mais ágeis, de coordenação mais precisa. Máquinas de guerra melhoradas de um lado e outro da fronteira: soldados e astronautas quase 'artificiais'; seres 'artificiais' quase humanos. Biotecnologias. Realidade virtuais. Clonagens que embaralham as distinções entre reprodução natural e reprodução artificial. Bits e bytes que circulam, indistintamente, entre corpos humanos e corpos elétricos, tornando-os igualmente indistintos: corpos humano-elétricos."

Quando Rob Spence, já conhecido como uma lenda da body modification, conseguiu implantar uma luz de LED na cavidade de seu olho perdido, ele estava apenas dando um primeiro passo para o desenvolvimento de seu próximo projeto: o Eyeborg, um olho cibernético dotado de uma câmera. De maneira menos radical também, outros biohackers estão implantando ímãs na ponta de seus dedos, de modo que são capazes de atrair às mãos pequenos objetos como clipes de papel, parafusos e pregos. Mas antes mesmo de chegarmos ao ponto de usar implantes que amplificam nossa capacidade corporal, tema que já foi brevemente discutido aqui, é possível olhar para a questão da modificação corporal a partir do viés da imagem corporal.

Em "Body Modification & Body Image", verbete parte do The Body Project da Universidade Bradley, vemos a separação das possíveis modificações corporais a partir das categorias de conformidade dos ideais de beleza, pertencimento a um grupo, marco de status social e demarcação de informação sobre conquistas e características pessoais de um indivíduo. Isto é, ao mesmo tempo em que podemos tratar a cirurgia cosmética como uma forma de adequação do indivíduo a um padrão e/ou ideal de beleza, o uso de piercings, tatuagens, escarificação e outros procedimentos avançados têm a ver também com uma questão identitária representativa e não homogeneizadora.

Segundo uma pesquisa feita em 2008 e mencionada no projeto, 60% das universitárias americanas possuíam piercing, enquanto homens do mesmo grupo demográfico chegavam ao marco de 42%. Um fato curioso é que, apesar de piercings terem uma perspectiva fashion, os pesquisadores entenderam que também há uma busca por maior controle do próprio corpo, especialmente após este ter sido violado. Um relato de uma vítima de estupro foi usado na pesquisa para defender a hipótese: "Estou fazendo esse piercing para recobrar o meu corpo. Fui usada e abusada. Meu corpo foi tomado por outra pessoa sem meu consentimento. Agora, pelo ritual do piercing, estou reclamando esse corpo como meu. Eu curo minhas feridas."

Veronica Blades e Adam Curlykale

Essa mesma constatação também aparece no artigo "Body Modification, Gender, and Self-Empowerment", publicado no blog do grupo de estudos Cyborgology, projeto integrante do departamento de sociologia da Universidade do Minnesota. O texto inicia mencionando uma mulher que celebrou seu divórcio fazendo uma tatuagem, então se tornando não apenas um rito de passagem, mas também um sinal de empoderamento. Na realidade, segundo Margot Mifflin em seu livro "Bodies of Subversion: A Secret History of Women and Tattoo" (1997), a prática feminina de se tatuar coincide diretamente com três ondas do feminismo. Ela traça um paralelo entre a Primeira Onda e as mulheres tatuadas do circuito de carnaval, enquanto que na Segunda Onda chegavam as mulheres tatuadoras da Tattoo Renaissance (anos 60 e 70), e finalmente a Terceira Onda com a proliferação contemporânea de corpos femininos tatuados e, frequentemente, compostos por uma agenda política. "Porque elas violam as normas de gênero, as modificações corporais como tatuagens e piercings servem como uma declaração de autonomia e um meio de resistência às noções tradicionais de feminilidade", escreve Strohecker.

O mesmo vale também para a comunidade LGBT. Victoria Pitts, que se tornou referência na pesquisa sobre body modification, publicou em 2000 o artigo "Visibly Queer: Body Technologies and Sexual Politics", no qual ela investiga justamente a prática de modificação corporal dentro da comunidade LGBT. Segundo ela, "entre gays, lésbicas e transgêneros que praticam modificação corporal, o significado é narrado a partir de um discurso queer que põe o lugar do corpo em um contexto de relações de poder que produz/regula o gênero e a sexualidade."

Assim, a partir de uma perspectiva feminista pós-estruturalista, Pitts argumenta que "corpos e sujeitos são moldados em um contexto discursivo que privilegia a heterossexualidade, os papéis de gênero binários, e certas formas de prazer e apresentação de si sobre os outros. Em uma veia pós-estruturalista feminista/queer, a prática corporal é um local de criação do gênero, (hetero)sexualidade e outras categorias da identidade." Pitts cita também Judith Butler e sua formulação do gênero como algo performático, de modo que o corpo se torna "estilizado" para performar esses papéis.

Quando Haraway publicou seu manifesto, ela também, como pensadora feminista, trazia a figura do ciborgue como um ser "pós-gênero", o que traz à tona esse discurso de busca pela negação e desassociação da heteronormatividade da comunidade LGBT e das mulheres como grupo minorizado. Por outro lado, no caso das pessoas trans, modificações corporais são, muitas vezes, necessárias para se conquistar um corpo que reflita e afirme seu gênero. Na realidade, dentro do próprio transumanismo há uma vertente que trata do pós-gênero ou da conquista de um posto que transcende o gênero a partir do uso da tecnologia para modificação do corpo – Martine Rothblatt, por exemplo, é uma das referências nesse assunto.

E é nessa trajetória de busca por algo além do gênero que encontramos manifestações identitárias do corpo ciborgue que realmente busca uma outra aparência, uma beleza pós-humana ou até mesmo "alienígena" para nossos padrões. Com a chegada dos filtros em realidade aumentada em aplicativos como Snapchat e Instagram, vemos também a exploração dos corpos modificados apenas em imagem, de forma tão fugaz quanto as 24 horas de duração dos stories. Dos filtros de troca de gênero até as máscaras cromadas de Johanna Jaskowska, vemos nas redes sociais a exploração de um novo tipo de beleza outrora reservado a artistas experimentais como Matthew Barney e Björk, por exemplo.

Em "Matthew Barney, or the body as machine", Giovanna Zapperi explora justamente a visão do artista sobre o corpo do futuro conforme este explora possíveis transformações do humano a partir de sua série Cremaster Anatomies, exposta em 1993 e já inspirada pelos crescentes desenvolvimentos da cirurgia plástica, biotecnologia e medicina à época. Como descreveu o curador da exposição à época, Jeffrey Deitch, artistas, no futuro, já não estarão mais envolvidos em apenas redefinir o que é arte, mas sim em redefinir a vida.

Matthey Barney

Para além das galerias de arte, também uma nova geração de influenciadores têm adaptado a cultura drag com filtros em realidade aumentada e edição de imagem para a criação de novos corpos que desafiam a noção de beleza com a assimilação do grotesco em sua ambiguidade. Se, a princípio, temos a definição de beleza clássica a partir de mensurações objetivas como a simetria e proporcionalidade, no romantismo somos apresentados a um ideal de beleza subjetivo e que está na recepção/interpretação do outro. No nosso presente pós-moderno, essas ideias se colidem entre blogueiras fitness e artistas como Salvia, que exploram uma noção do corpo para além do gênero e para além do humano, mas ainda dotado de uma retórica ciborgue a partir do olhar da comunidade LGBT. Em suas palavras, "beleza é algo completamente subjetivo; vestir-me [desta forma] me dá a oportunidade de experienciar uma fantasia e celebrar a mim mesma. E apesar de eu não precisar disso para me sentir bonita, é uma forma importante de amor próprio para mim."

Por fim, ao combinarmos essas tendências, podemos pensar num possível futuro no qual a espécie humana se modifique tanto a partir da miscigenação impulsionada pela globalização como a chegada de tecnologias que se adequem ao nosso corpo ao mesmo tempo em que também as máquinas se tornam mais inteligentes e próximas de nós mesmos. Não apenas teremos nanorrobôs em nossa corrente sanguínea como também nos conectaremos à internet diretamente de nossos cérebros e poderemos, quem sabe, finalmente quebrar a lógica heteronormativa de gêneros binários ao conquistar um outro posto de humanidade: um que não é nem transgênero, mas transumano, como defende Rothblatt. Em outras palavras, podemos estar nos encaminhando para um futuro povoado por brasileiros ciborgues – e isso parece muito divertido.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre a autora

Jornalista e pesquisadora em futurologia. Mestre em semiótica, doutoranda em artes visuais, palestrante, professora e escritora de ficção científica.

Sobre o blog

Artigos sobre os impactos das inovações tecnológicas na sociedade e na cultura com uma pitada de arte e ficção científica.